
Pesquisadores das universidades de Birmingham (Reino Unido) e da empresa de segurança Fuzzware revelaram, em agosto de 2026 na conferência USENIX WOOT (Maryland, EUA), uma vulnerabilidade crítica em cartões SIM e modems celulares que permite a invasores assumir o controle remoto de dispositivos sem que o sistema operacional detecte a ameaça. A brecha afeta especialmente equipamentos IoT industriais e três modelos de smartphones Find X5, Reno 14 F 5G (Oppo) e Zenfone 9 (Asus) e representa risco direto para infraestruturas críticas corporativas.
Uma vulnerabilidade SIM card descoberta por pesquisadores britânicos pode mudar a forma como empresas protegem sua infraestrutura móvel e de IoT. A falha permite que invasores assumam o controle remoto de dispositivos celulares e módulos industriais sem que o sistema operacional emita qualquer alerta. O ataque acontece em silêncio.
Como a brecha funciona na prática
A vulnerabilidade SIM card explora um recurso chamado ‘RUN AT’, derivado da linguagem de controle AT um protocolo criado para modems em 1981. Por meio desse mecanismo, um chip SIM adulterado consegue enviar comandos diretamente ao modem do dispositivo, sem passar pelo sistema operacional principal.
Isso significa que soluções tradicionais de segurança antivírus, EDR, firewalls de endpoint simplesmente não enxergam o ataque. O vetor opera numa camada abaixo do radar convencional.
Para executar a invasão, o criminoso precisa cumprir uma das seguintes condições: trocar o chip SIM fisicamente, instalar uma película adaptadora no leitor do aparelho ou adulterar o componente ainda na linha de produção. Não há, portanto, exploração remota por rede o acesso físico ao dispositivo ou à cadeia de suprimentos é pré-requisito.
Números que preocupam o setor de TI
Os pesquisadores testaram 26 dispositivos. Desse total, 9 aceitaram comandos maliciosos enviados por um chip adulterado uma taxa de 35%. O dado mais alarmante, porém, está no segmento de IoT industrial: 6 dos 8 módulos celulares testados para esse mercado apresentaram comportamento vulnerável, equivalente a 75% dos módulos avaliados.
Entre smartphones, a proporção foi menor, mas significativa: 3 dos 18 modelos testados responderam às instruções de invasão (17%). Os aparelhos afetados identificados foram o Find X5, o Reno 14 F 5G ambos da Oppo e o Zenfone 9, da Asus. Nenhum modelo da Apple ou do Google apresentou a vulnerabilidade SIM card.
Um dado une todos os dispositivos comprometidos: os 9 afetados utilizam processadores de comunicação desenvolvidos pela Qualcomm.
O risco real para infraestruturas críticas
Para executivos de TI e Cibersegurança, o ponto de maior atenção não está nos smartphones. Está nos equipamentos IoT industriais.
Carregadores de veículos elétricos, roteadores industriais e sistemas automotivos frequentemente operam em locais públicos ou de difícil monitoramento contínuo. São alvos prioritários justamente porque combinam conectividade celular com supervisão física reduzida. Um módulo comprometido nesse contexto pode expor redes inteiras a comandos remotos não autorizados.
A gravidade se amplifica pelo fato de que o ataque bypassa o sistema operacional. Equipes de segurança que monitoram apenas camadas de software têm visibilidade zero sobre essa classe de ameaça. É uma lacuna de detecção que exige revisão imediata de modelos de defesa em profundidade.
O cenário se agrava quando analisado em conjunto com outras descobertas recentes. Em junho de 2026, a Kaspersky documentou uma vulnerabilidade nos chips da Qualcomm. Em julho de 2025, pesquisadores identificaram falhas na plataforma eSIM Kigen, da GSMA TS.48, colocando em risco bilhões de dispositivos IoT. A vulnerabilidade SIM card revelada na USENIX WOOT se insere num padrão preocupante de fragilidades em hardware mobile e de conectividade.
O que fabricantes e gestores de TI devem fazer agora
A resposta da indústria já começou, mas ainda é parcial. A Qualcomm desenvolveu uma trava de segurança que desativa a função vulnerável por padrão em seus novos chips. A Quectel, fabricante de módulos IoT, corrigiu falhas de acesso a arquivos e trabalha em atualizações adicionais. Até a publicação das notícias, nenhuma invasão real explorando essa brecha foi confirmada.
Para gestores de TI e Cibersegurança em grandes organizações, a pesquisa impõe ações concretas em três frentes.
A primeira é o mapeamento de inventário. Identificar quais dispositivos IoT e smartphones corporativos utilizam módulos celulares Qualcomm vulneráveis é o ponto de partida. Sem visibilidade do parque, não há priorização possível.
A segunda é a revisão da cadeia de suprimentos. A possibilidade de adulteração do chip na linha de produção eleva o nível de risco para organizações que adquirem equipamentos em grandes volumes ou por fornecedores terceirizados. Auditorias de hardware e controles de custódia devem ser revistos.
A terceira é a atualização dos modelos de ameaça. A vulnerabilidade SIM card demonstra que ameaças de hardware que operam abaixo do sistema operacional precisam constar formalmente nos frameworks de gestão de risco das organizações. Depender exclusivamente de soluções baseadas em software é insuficiente para esse vetor.

A pressão sobre fabricantes de chips, de módulos e montadoras para revisar padrões de hardening de hardware embarcado tende a crescer. Para as equipes de segurança corporativa, o recado é claro: a superfície de ataque agora inclui o próprio chip de conectividade — e ele pode ser o elo mais silencioso da cadeia.
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