
A crescente dependência do sistema financeiro de grandes provedores globais de tecnologia está levando bancos a reverem a forma como estruturam aplicações, dados e infraestrutura. Na FEBRABAN TECH 2026, o painel “Soberania digital, multicloud e risco sistêmico” mostrou que a discussão deixou de estar concentrada apenas na adoção da nuvem e passou a envolver capacidade de recuperação, controle tecnológico, portabilidade e continuidade dos serviços.
O debate reuniu Patrícia Cortez, Superintendente Nacional de Serviços de TI da Caixa; André Palma, Diretor de Tecnologia do Itaú Unibanco; Marcos Siqueira, CRO e Head de Estratégia da Ascent; e Bruno Asaf, Diretor de IA, Cloud, Cyber, Backup e Data Center da Dell Technologies do Brasil.
Um dos pontos centrais foi a mudança na percepção sobre soberania digital. Em vez de associar o conceito simplesmente à manutenção de dados dentro de instalações próprias ou do território nacional, os executivos defenderam uma visão baseada principalmente em controle, conhecimento da arquitetura, capacidade de recuperação e independência operacional.
Multicloud se aproxima da estratégia de continuidade
A concentração de serviços em poucos provedores globais pode ampliar eficiência e velocidade de desenvolvimento, mas também cria dependências que precisam ser consideradas na arquitetura das instituições financeiras. Nesse cenário, a multicloud passa a assumir uma função diretamente ligada à continuidade do negócio. Para André Palma, a estratégia ultrapassa uma decisão exclusivamente tecnológica. “É estratégia e é negócio. É sobre continuidade do sistema financeiro brasileiro”, afirmou.
O executivo explicou que o Itaú desenvolve há anos uma estratégia de modernização de sua infraestrutura. O banco já trabalhava com private cloud desde 2014 e ampliou o movimento em direção às nuvens públicas após a evolução das regras aplicáveis ao setor financeiro.
Segundo André, quando o ambiente do banco é considerado em conjunto com seus principais provedores, a infraestrutura passa a contar com 12 data centers, aumentando as possibilidades de distribuição das cargas. O banco também trabalha com mais de um provedor para reduzir o impacto potencial de falhas concentradas.
A estratégia ganhou uma camada adicional com o desenvolvimento da plataforma chamada Camada Zero. Baseada em arquitetura celular, ela busca abstrair recursos específicos de diferentes provedores e permitir que determinados serviços considerados altamente críticos operem em duas nuvens simultaneamente.
Soberania não significa manter tudo dentro do banco
No caso da Caixa, a discussão ganha outra dimensão porque a instituição não é responsável apenas por serviços financeiros, mas também pela operação de diferentes serviços destinados à população.
Patrícia Cortez destacou que nuvem soberana não deve ser interpretada como uma estratégia de isolamento tecnológico. “A soberania não significa ter tudo dentro do banco”, afirmou.
Os grandes fornecedores internacionais permanecem relevantes porque permitem acelerar iniciativas e disponibilizam tecnologias que seriam mais difíceis de desenvolver isoladamente. A preocupação está em garantir que a instituição preserve condições de operar, recuperar ou transferir serviços mesmo diante de situações críticas.
Nesse modelo, conhecer toda a cadeia tecnológica torna-se parte da própria estratégia de gestão. Isso envolve compreender onde os dados são processados, quem controla os ambientes, quem possui acesso às chaves e quais fornecedores participam da prestação do serviço.
Para Patrícia, “a soberania está voltada para questões realmente estratégicas de governança e de gestão daquele serviço como um todo”.
A declaração reforça uma mudança importante na discussão sobre soberania digital. A localização física continua relevante, mas não garante, isoladamente, independência operacional.
Infraestrutura híbrida amplia espaço no setor financeiro
O painel também mostrou que a evolução para a nuvem não representa necessariamente o desaparecimento das estruturas locais. Ao contrário, modelos híbridos combinando cloud pública, cloud privada e ambientes físicos permanecem presentes nas estratégias das instituições.
Marcos Siqueira afirmou que os clientes buscam cada vez mais conectar a infraestrutura física às nuvens públicas com baixa latência e maior capacidade de governança. Certificações relacionadas à infraestrutura, segurança da informação e continuidade de negócios também passaram a ganhar espaço nas decisões do setor financeiro.
Nesse ambiente, resiliência, segurança e governança tornam-se atributos integrados à arquitetura.
O crescimento da inteligência artificial também pode acelerar essa reorganização. Bruno Asaf avaliou que workloads de IA apresentam características que podem facilitar a distribuição entre diferentes ambientes, permitindo que empresas utilizem modelos, plataformas públicas e infraestrutura privada de acordo com suas necessidades.
Segundo Bruno, esse movimento cria espaço para as chamadas fábricas de IA, estruturas capazes de trabalhar com múltiplos modelos e agentes dentro de ambientes controlados.
A preocupação deixa de envolver apenas os dados utilizados pelas organizações. Com sistemas de IA incorporando processos, conhecimentos e métodos internos, também passa a existir uma discussão sobre proteção da propriedade intelectual e continuidade dos próprios agentes digitais.
Data centers entram na discussão sobre autonomia tecnológica
A capacidade brasileira de hospedar infraestrutura também foi debatida durante a FEBRABAN TECH 2026. Marcos avaliou que o País ainda não possui todos os data centers necessários para suportar integralmente a expansão prevista da computação em nuvem e da IA.
Ao mesmo tempo, fatores como disponibilidade energética e participação elevada de fontes renováveis na matriz brasileira podem ajudar a posicionar o mercado nacional para receber novos investimentos.
Na avaliação apresentada no painel, ampliar a capacidade instalada no País daria às empresas maior possibilidade de escolher onde processar e armazenar suas informações. Marcos resumiu sua visão de soberania como a possibilidade de “dar a opção para o cliente de escolher efetivamente onde ele quer colocar os dados”.
A discussão está diretamente relacionada à expansão de serviços de IA, que demanda grande capacidade de processamento e pode elevar significativamente a necessidade de infraestrutura computacional nos próximos anos.
Resiliência precisa ser construída antes do incidente
Outra frente abordada pelo painel foi a preparação das instituições para falhas de grande escala. O consenso entre os participantes foi de que indisponibilidades continuarão acontecendo, independentemente de a infraestrutura estar em nuvem pública, privada ou dentro dos próprios data centers.
O diferencial está na capacidade de recuperação. André explicou que práticas como observabilidade, arquitetura resiliente, simulações de falhas e engenharia de plataforma já estão incorporadas ao desenvolvimento de sistemas bancários.
A modernização tecnológica do Itaú, segundo o executivo, contribuiu para reduzir em 99% os incidentes considerados mais críticos para os clientes desde 2020. O banco também ampliou significativamente o volume de mudanças realizadas em produção à medida que evoluiu sua arquitetura.
Em ataques cibernéticos, Bruno acrescentou outro componente: a necessidade de manter cópias isoladas e confiáveis dos dados. Cofres cibernéticos podem preservar informações íntegras para recuperação caso ambientes principais sejam comprometidos por ransomware ou outras invasões.
A chegada dos agentes de IA adiciona uma nova camada ao problema. À medida que sistemas autônomos assumem tarefas dentro dos processos corporativos, a indisponibilidade desses agentes pode representar uma interrupção operacional tão significativa quanto a parada de outros componentes tecnológicos.
Contratos também precisam acompanhar a era da IA
A transformação da infraestrutura exige mudanças que ultrapassam a arquitetura. Contratos, SLAs, auditorias e mecanismos de controle precisam acompanhar ambientes nos quais agentes de IA podem realizar milhares de chamadas, recomendações e decisões.
Patrícia ressaltou que a terceirização da operação não elimina a responsabilidade da instituição pelo serviço oferecido.
Por isso, contratos precisam prever transparência sobre acessos, fornecedores envolvidos, rastreabilidade das operações, possibilidade de auditoria e mecanismos de portabilidade. “Quanto mais tecnologia, quanto mais autonomia se tem, mais controle é necessário também que se tenha”, afirmou.
A gestão financeira também entra nessa equação. Agentes realizando grande quantidade de chamadas podem elevar rapidamente o consumo computacional e, consequentemente, os custos. A disciplina de FinOps passa, portanto, a integrar a discussão sobre governança desses ambientes.
Soberania digital passa a significar controle
Ao final do painel da FEBRABAN TECH 2026, as diferentes perspectivas convergiram para uma mesma direção: soberania não pode ser reduzida à localização física de servidores. Ela envolve domínio sobre arquitetura, dados, fornecedores, acessos, recuperação, portabilidade e continuidade dos serviços.
Para o sistema financeiro, em que aplicações permanecem disponíveis permanentemente e serviços como o Pix fazem parte da rotina de milhões de pessoas, a questão ganha dimensão estratégica. A evolução da nuvem e da inteligência artificial amplia as possibilidades tecnológicas disponíveis às instituições financeiras. Ao mesmo tempo, aumenta a necessidade de conhecer profundamente as dependências criadas por essa transformação. Na nova arquitetura do sistema financeiro, disponibilidade deixa de ser apenas uma característica técnica e passa a depender diretamente da capacidade de manter controle sobre todo o ecossistema tecnológico.

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