
A liderança em Segurança da Informação será colocada sob uma perspectiva menos técnica e mais humana no livro A Parte da Segurança que Ninguém Conta: Histórias reais sobre tecnologia, decisões, riscos e liderança. Coordenada por Allex Amorim, fundador do CISO’s Club, a obra reúne experiências profissionais que normalmente permanecem nos bastidores das organizações, como erros, crises, mudanças de trajetória, conflitos, decisões difíceis e a relação entre Segurança e negócio.
O livro será lançado em 17 de setembro de 2026, às 15h30, durante o Mind The Sec, em São Paulo, no stand G04+ da Thales. Na mesma ocasião, Allex Amorim também apresentará Os Primeiros 90 Dias de um CISO — O que realmente determina sua liderança antes que os resultados apareçam, obra individual dedicada aos desafios encontrados por executivos de Segurança quando assumem uma nova posição.
Apesar de seguirem propostas diferentes, os dois projetos partem de uma discussão semelhante: conforme aumenta a responsabilidade de quem atua em Segurança, o domínio de ferramentas, controles e frameworks permanece importante, mas passa a representar apenas uma parte das competências necessárias para a tomada de decisão.
Experiências que dificilmente aparecem nas certificações
A Parte da Segurança que Ninguém Conta surgiu a partir da percepção de que uma parcela relevante do conhecimento construído durante uma carreira não costuma chegar aos treinamentos tradicionais. São aprendizados desenvolvidos diante de situações concretas, muitas vezes depois de decisões equivocadas, momentos de pressão ou mudanças na maneira de compreender o papel da própria área.
O objetivo da publicação é transformar essas experiências em conhecimento compartilhado. Em vez de apresentar uma nova metodologia ou concentrar a discussão em ferramentas, os capítulos abordam liderança, carreira, relações humanas, riscos, influência, entendimento do negócio e amadurecimento profissional.
Segundo Allex Amorim, existe uma dimensão da profissão que dificilmente aparece nos modelos formais utilizados pelo mercado. “Existe uma parte da nossa profissão que dificilmente aparece nos frameworks. São as decisões difíceis, as crises, as relações, a necessidade de entender o negócio e de influenciar pessoas”, afirma Allex.
A proposta também reflete uma mudança observada no próprio papel de CISOs e demais responsáveis pela Segurança. À medida que riscos digitais entram nas discussões corporativas, torna-se necessário traduzir ameaças técnicas, contextualizar impactos, estabelecer prioridades e dialogar com áreas que possuem diferentes objetivos. Nesse ambiente, a liderança em Segurança da Informação passa a ser exercida também pela capacidade de criar confiança, influenciar decisões e conectar riscos tecnológicos às prioridades empresariais.
Da excelência técnica à visão de negócio
Essa transição aparece no capítulo de Carlos Grilli, A jornada do especialista técnico ao líder que protege o negócio, influencia decisões e constrói legado. A narrativa parte de um momento vivido pelo próprio profissional depois de dedicar os primeiros 90 dias de uma nova função à construção de um plano de Segurança que considerava tecnicamente consistente. Quando o projeto chegou a uma reunião de diretoria, ficou evidente que a qualidade técnica, isoladamente, não seria suficiente para garantir adesão ou direcionar as decisões da organização.
A experiência sintetiza uma das discussões que atravessam diferentes capítulos da publicação: quanto maior a responsabilidade, maior também a necessidade de compreender contexto, prioridades empresariais, pessoas e interesses envolvidos.
A conclusão aparece condensada em uma das frases apresentadas por Carlos Grilli: “A ferramenta nunca foi o problema.” Mais do que questionar a tecnologia, a afirmação desloca a discussão para a capacidade de avaliar por que determinados controles são necessários, quais riscos devem receber prioridade e como conquistar apoio para iniciativas que competem por orçamento e atenção dentro das empresas.
O relato também evidencia uma mudança frequente na trajetória de profissionais que deixam funções predominantemente técnicas para ocupar posições de gestão. Dominar soluções continua sendo necessário, mas passa a coexistir com competências relacionadas a comunicação, negociação, influência e leitura do ambiente empresarial.
Quando uma limitação se transforma em método
Willian Donizete Barbosa aborda outro aspecto da construção profissional no capítulo Confortável no Desconforto.
Willian conta que é daltônico e recupera um período de sua trajetória em telecomunicações no qual precisava trabalhar com fios identificados por cores. Uma tarefa praticamente automática para muitos profissionais exigia dele conferências adicionais, atenção redobrada e a criação de referências próprias para evitar falhas.
Além da dificuldade operacional, havia também a necessidade de demonstrar sua capacidade em um ambiente no qual determinadas tarefas haviam sido estruturadas sem considerar aquela limitação.
Em vez de transformar a condição em justificativa para interromper sua evolução profissional, Willian desenvolveu outros métodos para executar o trabalho.
“Eu posso. Só ainda não descobri como”, afirma no capítulo. A frase traduz uma abordagem baseada em adaptação. A dificuldade não é ignorada, mas passa a ser enfrentada por meio da construção de novas referências. Dentro da obra, essa trajetória amplia a discussão sobre desenvolvimento profissional ao mostrar que competências também podem surgir das limitações encontradas ao longo da carreira.
Liderança não começa quando chega o cargo
O processo de formação de um líder também aparece no capítulo de Wilton Jorge Joaquim Filho, Todo líder começa como aprendiz — A importância da humildade, da curiosidade e do aprendizado contínuo.
A reflexão parte da ideia de que ocupar uma posição de liderança não significa concluir o processo de formação profissional. Pelo contrário. Assumir responsabilidades maiores traz novos erros, frustrações, decisões e etapas de aprendizado. “Liderança é algo que se constrói ao longo do tempo”, afirma Wilton.
Sua trajetória complementa as demais experiências apresentadas na publicação. Enquanto Carlos Grilli representa a mudança da visão predominantemente técnica para uma perspectiva estratégica e Willian Donizete Barbosa demonstra como dificuldades podem produzir novas formas de trabalhar, Wilton direciona a atenção para a construção gradual da maturidade necessária à liderança em Segurança da Informação.
Carlos Grilli, Willian Donizete Barbosa e Wilton Jorge Joaquim Filho também fazem parte do PACS, Programa Acelerador de Carreira em Segurança da Informação. A ligação entre os três reforça outro ponto presente no livro: o desenvolvimento de profissionais preparados para assumir posições com maior impacto depende de um processo que envolve conhecimento técnico, repertório, experiência e capacidade de lidar com pessoas e decisões.
O desafio dos primeiros meses de um CISO
Em Os Primeiros 90 Dias de um CISO, Allex concentra a análise no período inicial de um executivo de Segurança dentro de uma nova organização. A obra questiona a pressão por resultados imediatos e propõe que os primeiros meses também sejam utilizados para compreender cultura, pessoas, expectativas, riscos e relações existentes “Existe uma pressão muito grande para que um novo CISO chegue mostrando rapidamente aquilo que consegue entregar. Mas os primeiros 90 dias não são apenas sobre aquilo que você consegue entregar. São, principalmente, sobre aquilo que você consegue compreender”, explica Allex.
Esse entendimento modifica a lógica de chegada de um novo executivo. Antes de iniciar transformações amplas, torna-se necessário identificar quais problemas realmente precisam ser resolvidos, quem participa das decisões, quais expectativas foram construídas e como a Segurança é percebida pelas demais áreas.
Construção de confiança, entendimento do negócio, capacidade de influência e escolha das prioridades passam, portanto, a fazer parte do trabalho desde o início.
Segurança como parte das decisões empresariais
As histórias reunidas nos dois livros ajudam a expor uma transformação mais ampla na profissão. Segurança deixou de ser uma atividade percebida somente como proteção de infraestrutura, implementação de controles ou resposta a incidentes. A área passou a participar cada vez mais de discussões relacionadas à continuidade operacional, reputação, riscos corporativos, inovação, investimentos e estratégia.
Esse movimento aumenta o espaço ocupado por CISOs e líderes de Segurança, mas também amplia suas responsabilidades. Conhecer tecnologias continua indispensável. Entretanto, comunicação, influência, leitura organizacional e tomada de decisão ganham peso à medida que esses profissionais se aproximam da alta gestão.
É justamente nessa fronteira entre tecnologia, pessoas e negócio que A Parte da Segurança que Ninguém Conta procura atuar. Mais do que oferecer respostas prontas, a obra registra experiências que poderiam permanecer restritas aos profissionais que as viveram. Ao transformá-las em capítulos, situações individuais passam a servir de referência para quem ainda encontrará dilemas semelhantes ao longo da própria trajetória.
No centro do projeto permanece uma pergunta: quanto conhecimento profissional está sendo perdido porque as pessoas que viveram determinadas histórias nunca encontraram espaço para contá-las? Para uma área marcada por mudanças constantes, parte da evolução da liderança em Segurança da Informação também pode depender da capacidade de registrar e compartilhar aquilo que nenhuma certificação consegue ensinar sozinha.

Assine a nossa News e siga o Itshow nas redes sociais para ficar por dentro de todas as notícias do setor de TI e Cibersegurança!