
O BA Brazil 2026 encerrou sua edição colocando a Análise de Negócios no centro de uma discussão que ganha espaço à medida que a inteligência artificial avança nas empresas: quanto mais sofisticadas se tornam as ferramentas digitais, maior é a necessidade de profissionais capazes de compreender problemas, interpretar contextos e transformar dados em decisões. Realizado nos dias 2, 3 e 4 de setembro, na FIAP Paulista, em São Paulo, o congresso reuniu especialistas de diferentes regiões do país em uma programação formada por 20 palestras, seis cursos de imersão, painéis e atividades de networking.
Organizado pelo IIBA Capítulo Brasil, o encontro teve como tema “Conhecimento que Gera Confiança” e, segundo a organização, registrou a maior participação de sua história. Mais do que discutir novas ferramentas, a programação concentrou parte importante dos debates em uma questão cada vez mais presente nas organizações: tecnologia, isoladamente, não resolve problemas de negócio quando falta entendimento sobre processos, objetivos e impactos das decisões.
A discussão ganha relevância em um momento no qual inteligência artificial generativa, automação e plataformas orientadas por dados estão sendo incorporadas rapidamente às rotinas corporativas. Esse movimento aumenta a capacidade de execução das empresas, mas também amplia o risco de automatizar processos mal definidos ou acelerar decisões construídas a partir de premissas equivocadas.
Entendimento do problema antes da tecnologia
Uma das mensagens recorrentes durante o congresso foi a necessidade de compreender profundamente o desafio antes de selecionar uma solução tecnológica.
Fabrício Laguna, co-organizador do evento e profissional de referência na área, abriu a programação discutindo a relação entre conhecimento e confiança profissional. Na sequência, Wagner Marques abordou a importância do domínio do problema como etapa anterior à escolha de ferramentas.
Essa abordagem dialoga diretamente com o papel desempenhado pela Análise de Negócios dentro das organizações. Em projetos envolvendo dados, automação ou IA, identificar necessidades reais, mapear capacidades existentes e estabelecer resultados esperados pode determinar a diferença entre uma implementação de tecnologia e uma iniciativa capaz de efetivamente produzir valor.
A lógica também contrasta com um comportamento recorrente no mercado: iniciar projetos pela escolha de plataformas ou soluções antes de estabelecer claramente qual problema precisa ser resolvido.
Lideranças discutem novas competências profissionais
O segundo dia do BA Brazil 2026 ampliou o debate ao reunir executivos no painel “O papel da Análise de Negócios no contexto atual de transformação dos negócios”.
Mediada por Ricardo Stucchi, presidente do IIBA Capítulo Brasil, a conversa contou com Alexandre Bianco, executivo de tecnologia com atuação em grupos empresariais e redes de franquia; Alexandre Gregianin, CTO da SmartFit; e Roberto Portella, líder da CIONET Brasil.
Entre os pontos destacados estiveram características que ganham importância em equipes responsáveis por transformação digital: curiosidade sobre o funcionamento do negócio, capacidade de formular perguntas, análise orientada a dados e disposição para questionar modelos já estabelecidos.
O debate sugere uma mudança relevante para profissionais de tecnologia. Em um ambiente no qual sistemas passam a executar atividades antes dependentes exclusivamente de intervenção humana, competências relacionadas a julgamento, interpretação e visão sistêmica tendem a ganhar peso.
Isso significa que a expansão da IA não necessariamente reduz a importância do profissional responsável por estruturar problemas. Em muitos casos, pode produzir justamente o efeito oposto.
Estratégia e cultura entram na discussão
A programação também tratou da relação entre planejamento, transformação organizacional e tecnologia.
Luiz C. Parzianello apresentou um modelo de Estratégia Orientada a Valor, conectando elementos como propósito, resultados, capacidades, recursos e ações. A proposta também incorporou agentes de inteligência artificial ao planejamento estratégico, mostrando como essas ferramentas podem apoiar atividades de análise sem substituir a necessidade de direcionamento humano.
Angélica Maria do Nascimento, por sua vez, abordou o impacto da cultura organizacional sobre iniciativas de mudança. O tema acrescenta outra dimensão à discussão sobre inovação: mesmo projetos tecnicamente bem estruturados podem enfrentar dificuldades quando processos, comportamentos e incentivos internos não acompanham a transformação pretendida.
No terceiro dia, a programação saiu dos debates conceituais e avançou para cursos práticos relacionados a gestão de produtos, levantamento de requisitos e aplicação crítica de IA na rotina profissional.
Carreira de analista também esteve em pauta
Outro ponto apresentado durante o evento foi a Pesquisa Salarial de Analistas de Negócios, desenvolvida em parceria com o Mackenzie. O levantamento busca acompanhar remuneração, certificações, setores de atuação e perspectivas profissionais diante das mudanças provocadas pela transformação digital.
A discussão sobre carreira ocorre em um momento de redefinição de diversas funções. Ferramentas de IA já conseguem produzir documentos, analisar grandes conjuntos de informações e auxiliar na construção de requisitos. Entretanto, atividades como compreender interesses conflitantes, identificar necessidades implícitas, avaliar impactos e conectar decisões à estratégia empresarial ainda dependem fortemente de contexto.
Nesse cenário, a Análise de Negócios tende a se aproximar cada vez mais de temas como inteligência artificial, gestão de produtos, estratégia e transformação organizacional.
O BA Brazil 2026 mostrou justamente essa convergência. Em vez de colocar tecnologia e conhecimento humano em lados opostos, os debates apontaram para uma relação complementar: ferramentas ampliam capacidade, mas a qualidade dos resultados continua ligada à capacidade de formular problemas, interpretar informações e direcionar decisões.
Para empresas que aceleram investimentos em IA, essa combinação pode se tornar uma das principais questões dos próximos anos. O desafio deixa de ser apenas adotar novas tecnologias e passa a envolver também a construção das competências necessárias para utilizá-las com contexto, método e responsabilidade.

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