
Durante o CIOs Connection, evento realizado pela SUCESU-SP, Roberto Coelho, vice-presidente do Gartner, apresentou uma palestra sobre os desafios das organizações para transformar investimentos em inteligência artificial (IA) em resultados concretos para os negócios. Com o tema “Retorno de Investimento”, o executivo abordou como os líderes de tecnologia precisam ampliar a discussão sobre IA, deixando de olhar apenas para ganhos de produtividade e passando a considerar geração de valor, transformação organizacional e impacto para a sociedade.
Logo no início da apresentação, Roberto destacou que a discussão sobre inteligência artificial vai além dos indicadores financeiros tradicionais. Para ele, os líderes de tecnologia possuem um papel importante em uma das maiores transformações da humanidade, equilibrando retorno financeiro com responsabilidade social.
“Além do retorno de investimento, que obviamente é muito importante para as nossas organizações, nós somos responsáveis por uma das mudanças mais radicais que a humanidade vai viver. A nossa responsabilidade não é apenas com o retorno de investimento. Ela tem a ver com o retorno para a sociedade e para as nossas próximas gerações”, afirmou Roberto Coelho durante o evento.
Organizações ainda buscam comprovar retorno financeiro da IA
Durante a palestra, Roberto apresentou dados de pesquisas realizadas pelo Gartner com CEOs e executivos de negócios, mostrando que o interesse em investir em inteligência artificial continua elevado, mas muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para alcançar retorno financeiro mensurável.
Segundo o executivo, os investimentos continuam acontecendo porque as organizações enxergam grande potencial na tecnologia, porém poucas iniciativas conseguiram, até o momento, atingir retorno de investimento tangível.
“O investimento ainda continua forte, as iniciativas, quando a gente escuta os CEOs e os boards, eles não perderam o apetite em investir em AI. O potencial que eles enxergam é alto, tem muita aposta no meio do caminho. Mas poucos conseguiram, até esse momento, atingir ROI tangível”, explicou.
Roberto também destacou que o retorno da inteligência artificial não acontece da mesma forma em todas as organizações ou profissionais. Segundo ele, fatores como experiência, complexidade da atividade e contexto de aplicação influenciam diretamente os resultados obtidos.
Produtividade não representa necessariamente valor financeiro
Um dos principais pontos apresentados pelo vice-presidente do Gartner foi a diferença entre produtividade e geração de valor para o negócio.
Segundo Roberto, muitas empresas iniciaram suas estratégias de IA distribuindo ferramentas para colaboradores com o objetivo de economizar tempo e aumentar eficiência individual. Embora essa abordagem possa contribuir para o desenvolvimento de habilidades em inteligência artificial, ela nem sempre representa impacto financeiro direto.
“Produtividade não é igual a valor financeiro”, destacou o executivo ao explicar que economizar horas de trabalho não significa necessariamente gerar receita ou reduzir custos diretamente.
Para aprofundar essa discussão, Roberto apresentou os conceitos de “Blue Money” e “Green Money”. O primeiro está relacionado aos ganhos operacionais, como melhoria de eficiência e economia de tempo. Já o segundo representa impactos diretos no resultado financeiro da empresa, como redução de custos ou aumento de receita.
Segundo ele, o desafio dos líderes de tecnologia é mudar a forma como os projetos de IA são apresentados aos executivos de negócio, conectando as iniciativas aos objetivos estratégicos da organização.
Casos mostram como a IA pode gerar novos resultados
Durante a apresentação, Roberto compartilhou exemplos de empresas acompanhadas pelo Gartner que conseguiram avançar no uso de inteligência artificial para além da eficiência operacional.
Entre os casos apresentados estavam iniciativas da EMS, Cenibra e Suzano. Segundo o executivo, algumas organizações já utilizam IA para criar novos produtos, melhorar processos e gerar impactos diretamente relacionados ao negócio.
No caso da EMS, Roberto destacou o uso da tecnologia para apoiar a descoberta de novos compostos e medicamentos. Segundo ele, o tempo de pesquisa e desenvolvimento para descoberta de novos medicamentos caiu de um período entre 15 e 20 anos para aproximadamente 5 a 8 anos.
Outro exemplo apresentado foi o caso da Juntos Seguros, envolvendo a executiva Carine, que utilizou inteligência artificial para melhorar processos comerciais, reduzir sinistros e gerar resultados para a organização.
Segundo o relato apresentado por Roberto, após a implementação das iniciativas de IA, a expectativa inicial de redução de equipes deu lugar a uma visão de crescimento, já que a empresa identificou novas necessidades relacionadas à governança, segurança, monitoramento de agentes e evolução dos projetos.
CIO precisa assumir protagonismo na agenda de inteligência artificial
Outro ponto abordado durante o CIOs Connection foi a mudança no papel dos líderes de tecnologia diante da evolução da inteligência artificial.
Para Roberto, a IA deixou de ser uma pauta exclusivamente técnica e passou a ser uma discussão estratégica de negócios. Por isso, executivos de todas as áreas precisam compreender o impacto da tecnologia.
“O C-Level que não estudou tecnologia até hoje não vai ter mais escapatória. Vai ter que estudar agora. Não tem jeito. Eles vão ter que se letrar em AI”, afirmou.
Segundo o executivo, os CIOs precisam participar da definição da ambição das organizações em relação à inteligência artificial, avaliando se o objetivo é buscar eficiência operacional, criar vantagem competitiva ou promover uma transformação mais profunda nos modelos de negócio.
Roberto também reforçou que essa responsabilidade não deve ficar concentrada apenas na área de tecnologia.
“Todo C-Level é responsável, não é só o CIO, não assuma essa responsabilidade sozinho. Todos aqui têm que participar, cada um tem o seu papel”, destacou.
IA transforma processos e modelos organizacionais
Na parte final da apresentação, Roberto abordou como a inteligência artificial deve modificar processos internos, estruturas organizacionais e a forma como o trabalho é realizado.
Segundo ele, as empresas precisam deixar de pensar apenas na automação de tarefas individuais e começar a analisar como a tecnologia pode transformar processos completos.
“A IA, diferentemente do que a gente aprendeu nas matérias fundamentais de organização e métodos, o processo com a IA não é serial. Ele pode ir para frente, para trás, para o lado, para o outro”, explicou.
O executivo também destacou que as organizações precisarão desenvolver novas competências e criar modelos de trabalho que combinem pessoas, agentes de IA e novas formas de colaboração.
Para Roberto, a evolução da inteligência artificial também exige uma revisão das métricas utilizadas pelas empresas. Além de avaliar produtividade e resultados financeiros, será necessário acompanhar aspectos como confiança nos modelos e qualidade das respostas geradas pela tecnologia.
Retorno sobre investimento precisa considerar futuro e sociedade
Ao encerrar sua participação, Roberto apresentou uma reflexão sobre diferentes formas de avaliar o retorno gerado pela inteligência artificial.
Além do tradicional retorno sobre investimento, o executivo destacou conceitos como retorno sobre o empregado, retorno sobre o futuro e retorno para a sociedade.
Segundo ele, algumas iniciativas de IA representam apostas estratégicas que podem não apresentar retorno imediato, mas são importantes para preparar as organizações para os próximos anos.
“A gente precisa evoluir esse pensamento para conseguir cada vez mais ter discussões que nos levem a processos melhores, automação e para modelos de negócios mais resilientes”, concluiu Roberto Coelho.
A palestra reforçou que a inteligência artificial representa uma mudança estrutural para as empresas e que os líderes de tecnologia terão papel fundamental na construção de estratégias capazes de equilibrar resultados financeiros, inovação e impacto positivo para a sociedade.

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