
Durante o Mind The Sec 2026, Rodrigo Jorge mostrou como agentes de inteligência artificial estão ampliando a automação dos ataques e defendeu que as empresas avancem da detecção para respostas capazes de corrigir, bloquear e proteger os ambientes digitais.
IA contra IA coloca velocidade de resposta no centro da cibersegurança
A inteligência artificial está alterando os dois lados da cibersegurança. Enquanto organizações incorporam a tecnologia para identificar vulnerabilidades, analisar eventos e automatizar operações, atacantes também passam a utilizar agentes capazes de executar etapas de uma ofensiva com maior autonomia. Esse cenário esteve no centro da palestra “IAxIA: Ataque e defesa mudaram três vezes enquanto você lia este título”, apresentada por Rodrigo Jorge, durante o Mind The Sec 2026, realizado entre 15 e 17 de setembro, no Transamerica Expo Center, em São Paulo.
O Portal Itshow acompanhou a apresentação, na qual Rodrigo colocou em discussão uma diferença importante entre os dois lados: enquanto as equipes corporativas precisam lidar com orçamento, prioridades, políticas e capacidade operacional para corrigir vulnerabilidades, o atacante não enfrenta as mesmas restrições para explorar uma falha identificada.
“O atacante, ele não espera, ele não pede permissão, ele não tem que esperar nada. A gente também tem que usar essa mesma IA ao nosso favor”, afirmou Rodrigo durante a apresentação.
A discussão aponta para uma mudança operacional: não basta ampliar a capacidade de encontrar problemas. Para Rodrigo, a defesa precisa conseguir acompanhar a velocidade com que ataques automatizados podem identificar e explorar oportunidades.
Agentes de IA ampliam a automação dos ataques
Durante a palestra, Rodrigo apresentou situações envolvendo agentes de IA executando atividades que antes dependeriam de equipes humanas. Em um dos exemplos citados, o agente poderia realizar varreduras, encontrar vulnerabilidades, credenciais ou serviços expostos e prosseguir com outras etapas do ataque.
A mudança está justamente na escala proporcionada pela automação. Se anteriormente diferentes tarefas exigiam intervenção humana durante uma ofensiva, agentes podem assumir parte desse trabalho e operar de maneira coordenada.
Rodrigo também chamou atenção para um ponto fundamental da operação defensiva: encontrar mais vulnerabilidades não significa necessariamente reduzir o risco. Se uma organização amplia sua capacidade de detecção, mas não possui orçamento, equipe ou prioridade para realizar as correções, cria-se uma distância entre aquilo que a segurança consegue identificar e aquilo que efetivamente consegue resolver.
Nesse contexto, a IA contra IA deixa de representar apenas uma disputa pela capacidade de detectar ameaças. O desafio passa a envolver também a velocidade para tomar decisões e executar respostas.
Defesa precisa avançar da detecção para a ação
Um dos principais pontos apresentados por Rodrigo foi a necessidade de utilizar inteligência artificial não apenas para produzir relatórios, dashboards ou alertas, mas para atuar diretamente nos processos de segurança.
Em um dos casos discutidos, um agente analisa informações de tráfego, cria contexto a partir dos registros, calcula o risco da conexão e pode enviar um comando para o WAF bloquear uma atividade considerada fraudulenta. Segundo a apresentação, nesse exemplo, o intervalo entre o registro e o bloqueio fica abaixo de um minuto.
A abordagem muda a função da IA dentro das operações de segurança. Em vez de entregar mais informações para que um profissional posteriormente tome uma decisão, a tecnologia começa a participar da própria execução da resposta.
“A grande mudança de paradigma é a gente colocar a IA para começar a agir nas correções e nos bloqueios e na proteção. Que a IA sabe detectar, a gente já sabe. Agora é corrigir. Aí é o grande desafio”, resumiu Rodrigo.
Esse movimento pode ser aplicado a diferentes áreas. Na palestra, foram apresentados exemplos envolvendo antifraude, operações de SOC, testes de segurança, AppSec e monitoramento de domínios falsos.
SOC agêntico pode reduzir tarefas manuais
As operações de Security Operations Center (SOC) também apareceram como uma das frentes em transformação. Rodrigo relatou o caso de uma operação com SLA de quatro horas, mas cuja fila poderia levar entre 24 e 48 horas para avançar. Nesse cenário, agentes podem auxiliar na leitura e na primeira triagem dos tickets, reduzindo a dependência de processamento exclusivamente humano.
A lógica também se estende aos testes de segurança. Rodrigo questionou o modelo de pentest realizado apenas periodicamente, especialmente porque novas versões de software podem modificar o ambiente logo depois de uma avaliação. Segundo ele, agentes permitem tornar determinadas verificações muito mais contínuas.
Em AppSec, outro exemplo apresentado envolve agentes capazes de abrir uma solicitação de correção com patch e testes. Nesse caso, porém, Rodrigo ressaltou a necessidade de revisão antes de qualquer mudança chegar à produção.
A mensagem é relevante para CISOs porque a adoção de agentes não elimina a necessidade de controles. Pelo contrário: quanto maior a autonomia concedida à IA, maior passa a ser a importância de definir limites para sua atuação.
Agentes de IA também precisam ser controlados
Ao mesmo tempo em que defendeu maior automação da defesa, Rodrigo destacou riscos associados aos próprios agentes. Sistemas autônomos também podem ser enganados ou executar ações inadequadas e, por isso, precisam operar dentro de uma arquitetura de controle.
Entre as medidas mencionadas durante a palestra estão privilégio mínimo para agentes, registro das ações realizadas, participação humana no circuito de decisão e mecanismos de kill switch, capazes de interromper uma operação quando necessário.
Essa combinação coloca uma questão adicional na agenda dos CISOs: além de se preparar para ataques potencializados por inteligência artificial, as organizações precisam considerar incidentes envolvendo a própria IA utilizada internamente.
Rodrigo provocou a audiência a pensar justamente nessa situação e na capacidade das equipes de responder caso um agente dentro do SOC apresente um comportamento inesperado. A recomendação apresentada foi incorporar esses cenários aos exercícios de preparação das equipes de segurança, incluindo simulações e table tops.
Na corrida entre ataque e defesa, corrigir passa a ser decisivo
A palestra “IAxIA” apresentou uma mudança importante para a estratégia de cibersegurança. A inteligência artificial amplia a capacidade de encontrar vulnerabilidades, interpretar grandes volumes de dados e automatizar tarefas, mas essas capacidades também estão disponíveis para quem conduz ataques.
Para as empresas, portanto, aumentar o número de alertas não resolve sozinho o problema. O desafio passa a ser conectar detecção, decisão e ação, criando processos nos quais a automação possa contribuir para reduzir o intervalo entre a identificação de uma ameaça e sua contenção.
Ao mesmo tempo, a autonomia precisa vir acompanhada de governança. Agentes com privilégios excessivos ou sem supervisão podem criar uma nova superfície de risco dentro da própria estrutura defensiva.
No encerramento, Rodrigo sintetizou a discussão em uma frase: “A diferença nesse mundo todo é que quem corrige ganha”. Transcrição 06
Para CISOs e líderes de tecnologia, a provocação deixa uma agenda clara: entender não apenas onde a IA pode ampliar a capacidade de detectar ameaças, mas em quais processos ela pode ajudar a decidir, corrigir e responder, sem retirar os controles necessários para que a própria defesa não se transforme em um novo vetor de risco.

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