Coreia do Sul amplia fábricas de semicondutores e investimentos estratégicos para ganhar espaço na guerra dos chips.

A Coreia do Sul está ampliando sua estratégia para fortalecer a indústria de semicondutores e consolidar uma posição ainda mais relevante na guerra dos chips. O governo sul-coreano anunciou a criação de um fundo de 5 trilhões de won, aproximadamente US$ 3,52 bilhões, destinado a empresas de materiais, componentes, equipamentos e companhias fabless, responsáveis pelo desenvolvimento de semicondutores sem fabricação própria.

Além do novo fundo, Seul pretende disponibilizar outros 5 trilhões de won em financiamento comercial para fornecedores do setor. As medidas fazem parte de um programa industrial mais amplo que reúne governo, grandes fabricantes e empresas da cadeia produtiva em torno de uma das tecnologias mais disputadas da economia mundial.

O movimento mostra que a competição por capacidade computacional já não está restrita à rivalidade entre Estados Unidos e China. Países com domínio tecnológico, capacidade fabril e fornecedores especializados ganham importância à medida que inteligência artificial, computação em nuvem e data centers aumentam a necessidade de memória e processamento.

Coreia do Sul amplia cadeia de semicondutores

A estratégia sul-coreana procura reduzir gargalos em diferentes partes da produção. O fundo anunciado pelo governo não terá como objetivo apenas financiar grandes fábricas. Empresas envolvidas no desenvolvimento de materiais, peças, equipamentos industriais e projetos de chips também estarão no centro dos aportes.

Outro programa, estimado em 1 trilhão de won e planejado para dez anos, deverá incentivar a cooperação entre grandes companhias e fornecedores menores nas etapas de desenvolvimento, testes e produção. A intenção é criar uma cadeia mais integrada e ampliar a capacidade doméstica de atender à expansão das fábricas.

Esse desenho torna a guerra dos chips uma disputa que vai muito além de quem consegue produzir o processador mais avançado. Equipamentos de fabricação, memória, encapsulamento, projeto, disponibilidade energética e acesso a matérias-primas passaram a formar um ecossistema diretamente relacionado à competitividade tecnológica dos países.

A Coreia do Sul parte de uma posição relevante nesse cenário. Samsung Electronics e SK Hynix estão entre os principais nomes mundiais da indústria de memória, incluindo componentes de alta largura de banda, conhecidos como HBM, cada vez mais utilizados na infraestrutura necessária para sistemas avançados de inteligência artificial.

Inteligência artificial aumenta pressão sobre produção

O avanço da IA ajuda a explicar a dimensão dos investimentos. Servidores responsáveis pelo treinamento e operação de modelos avançados demandam grandes volumes de memória, capacidade de processamento e armazenamento.

Em maio de 2026, as exportações sul-coreanas de semicondutores cresceram 169,4% na comparação anual e alcançaram US$ 37,16 bilhões, recorde mensal, segundo dados citados pela Reuters. As vendas de computadores também avançaram fortemente, impulsionadas pela procura por servidores de inteligência artificial.

Esse aumento de consumo está levando fabricantes a antecipar expansões. O governo sul-coreano avalia que as estruturas existentes em Yongin e Pyeongtaek podem não ser suficientes para absorver a demanda associada à IA nos próximos anos.

A SK Hynix, por exemplo, aprovou recentemente investimentos de 54,3 trilhões de won, cerca de US$ 38,3 bilhões, até 2031 para ampliar instalações em Yongin e Cheongju. Parte da nova capacidade será destinada à produção de DRAM e HBM, enquanto outra parcela atenderá à fabricação de memória NAND utilizada para armazenamento de dados, inclusive em servidores de IA.

Energia e água entram na guerra dos chips

A expansão industrial também coloca infraestrutura física no centro da estratégia tecnológica. Uma fábrica avançada de semicondutores exige grandes volumes de eletricidade, água, terrenos preparados, logística e mão de obra especializada.

Para o complexo planejado na região de Gwangju e South Jeolla, autoridades pretendem assegurar cerca de 650 mil toneladas métricas de água por dia até 2030, utilizando inclusive água residual reciclada e recursos provenientes de barragens próximas.

No cluster de Yongin, o planejamento prevê fornecimento de 14,7 gigawatts de eletricidade até 2041, combinando cogeração, geração a gás natural liquefeito e energia proveniente de outras áreas do país.

Esses números mostram como a guerra dos chips passa a envolver também políticas energéticas e planejamento territorial. Construir novas fábricas sem assegurar eletricidade, água e fornecedores próximos pode transformar investimentos bilionários em projetos incapazes de alcançar rapidamente a escala necessária.

O governo ainda pretende aprovar uma legislação especial para acelerar processos relacionados a licenças, avaliações ambientais e implantação de infraestrutura nos grandes polos industriais.

Samsung e SK Hynix sustentam expansão do país

O fundo anunciado agora complementa uma movimentação iniciada anteriormente. Em junho, a Coreia do Sul apresentou uma ampla estratégia industrial envolvendo semicondutores, inteligência artificial física e data centers.

Os investimentos previstos em novos projetos de fabricação de chips envolvendo Samsung Electronics, SK Hynix, fornecedores e governos locais ultrapassam US$ 576 bilhões. O plano inclui novas instalações e expansão de polos existentes, além de iniciativas destinadas a descentralizar parte da produção atualmente concentrada nas proximidades de Seul.

A relação entre semicondutores e infraestrutura de IA também deverá ficar mais próxima. Projetos apresentados pelo país incluem grandes investimentos em data centers, criando uma conexão direta entre fabricação de memória, capacidade computacional e operação de sistemas inteligentes.

Com essa estratégia, a Coreia do Sul não surge do zero como participante da disputa. O país já ocupa uma posição de destaque na fabricação de memória. O que muda é a escala dos esforços para transformar essa vantagem industrial em uma estrutura mais abrangente, envolvendo fornecedores, fábricas, pesquisa, energia e infraestrutura digital.

Nesse cenário, a guerra dos chips tende a ser definida não apenas pela capacidade de desenvolver semicondutores avançados, mas pela possibilidade de produzi-los em grande volume e sustentar todo o ecossistema necessário para atender ao crescimento da inteligência artificial. A nova rodada de investimentos sul-coreanos reforça que essa competição está se tornando mais distribuída e adiciona Seul com ainda mais força ao tabuleiro tecnológico global.

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