Identidade digital exibida no aplicativo gov.br em smartphone sobre teclado preto, simbolizando acesso seguro a serviços públicos online.

O Brasil enfrenta uma corrida contra o tempo na proteção da identidade digital. Com 12 milhões de certificados ativos e quase 90% dos incidentes de segurança ligados a falhas de identidade, o país avança na adoção de criptografia pós-quântica mas o relógio não para: computadores quânticos ameaçam tornar obsoleta toda a infraestrutura de autenticação atual, exigindo que CISOs e CIOs reposicionem a identidade como prioridade estratégica imediata.

A identidade digital deixou de ser um detalhe técnico para se tornar o principal vetor de ataques contra organizações. Dados recentes revelam que quase 90% das investigações de incidentes conduzidas entre 2024 e 2025 identificaram falhas de identidade como fator determinante para o sucesso das invasões. O número é alarmante e exige ação imediata dos líderes de TI.

Credenciais comprometidas em escala industrial

O volume de exposição de credenciais atingiu proporções históricas. Desde abril de 2024, mais de 19 bilhões de credenciais foram expostas globalmente. A Bitsight registrou 2,9 bilhões de credenciais únicas comprometidas somente em 2024, ante 2,2 bilhões no período anterior um crescimento de 32% em um único ciclo.

No ambiente corporativo, o problema se aprofunda. Um levantamento envolvendo 680 mil identidades na nuvem revelou que 99% delas carregavam privilégios excessivos. Isso significa que, uma vez comprometida, uma conta entrega ao atacante acesso muito além do necessário. Esse excesso de permissões transforma cada credencial vazada em uma chave mestra.

Ao mesmo tempo, pelo menos 74% dos incidentes de segurança têm como vetor inicial o erro humano ou engenharia social. Phishing, pretexting e deepfakes alimentados por inteligência artificial tornaram a fronteira entre o usuário legítimo e o invasor perigosamente tênue.

O Brasil e a corrida pela identidade segura

O país ocupa uma posição relevante nesse cenário. São 12 milhões de certificados digitais ativos, com 3,96 milhões emitidos apenas em 2023. O certificado digital consolidou-se como porta de entrada essencial tanto para serviços públicos quanto para operações corporativas. A Assinatura Gov.br já registra mais de 1 milhão de validações por dia e deu um passo pioneiro ao adotar algoritmos pós-quânticos em sua infraestrutura.

Essa movimentação não é acidental. O ITI publicou a Instrução Normativa nº 35/2026, que obriga a migração para algoritmos resistentes a computadores quânticos em toda a cadeia da ICP-Brasil. A regulação reconhece uma ameaça que especialistas descrevem como inevitável: quando computadores quânticos atingirem maturidade operacional, a criptografia assimétrica convencional base de toda a autenticação atual poderá ser quebrada em questão de horas.

Centralização, Zero Trust e a resposta do mercado

A gestão centralizada de certificados digitais emerge como resposta operacional imediata. Segundo a Redtrust, empresa do grupo Keyfactor, proteger a identidade digital é crucial porque os ataques geralmente começam pelo comprometimento dessa camada. A centralização permite rastrear, revogar e renovar certificados com velocidade algo impossível em ambientes fragmentados.

O modelo Zero Trust complementa essa abordagem. Em vez de confiar automaticamente em qualquer entidade dentro do perímetro corporativo, ele exige verificação contínua de cada acesso. Combinado com soluções de ITDR Identity Threat Detection and Response o framework cria camadas de defesa que dificultam o movimento lateral de invasores após uma credencial ser comprometida.

A Keyfactor está investindo ativamente no desenvolvimento de algoritmos pós-quânticos para antecipar as ameaças futuras. A lógica é simples: organizações que aguardarem a ameaça se materializar para agir já estarão em desvantagem irreparável.

Tecnologias como biometria avançada, credenciais verificáveis descentralizadas e autenticação sem senha ganham espaço como camadas adicionais de proteção. Deepfakes e identidades sintéticas, por outro lado, elevam o nível de sofisticação dos ataques e tornam insuficientes os controles tradicionais baseados apenas em senha e token.

O investimento que o setor não pode adiar

O mercado responde com capital. O Brasil deve receber R$ 104,6 bilhões em investimentos em cibersegurança entre 2025 e 2028, representando crescimento de 43,8%. Parte significativa desse volume será direcionada exatamente para soluções de proteção de identidade digital.

Para os executivos de TI, o cenário traduz-se em três frentes de ação urgente. A primeira é o inventário completo de certificados e credenciais ativas sem visibilidade total, não há proteção possível. A segunda é a adoção de arquiteturas Zero Trust, eliminando o excesso de privilégios que transforma contas comprometidas em ameaças críticas. A terceira é o planejamento da migração pós-quântica, que já tem prazo regulatório no Brasil e exigirá revisão profunda de toda a infraestrutura de PKI.

Conscientizar as organizações sobre a centralidade da identidade digital segue sendo o principal desafio do setor, segundo especialistas. Empresas que tratam o tema como questão periférica de TI correm o risco de descobrir sua vulnerabilidade da pior forma possível: durante um incidente.

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