
O mercado de semicondutores caminha para um dos maiores ciclos de expansão de sua história, impulsionado principalmente pelos investimentos em inteligência artificial, data centers e componentes de memória. Nova projeção do Gartner indica que a receita mundial do setor deverá alcançar aproximadamente US$ 1,6 trilhão em 2026, crescimento de 92% em relação aos US$ 809 bilhões estimados para 2025.
A previsão chama atenção não apenas pelo tamanho do mercado, mas também pela velocidade com que as expectativas estão sendo revisadas. Em abril de 2026, o próprio Gartner estimava receita de aproximadamente US$ 1,32 trilhão para este ano. Na atualização divulgada em agosto, a projeção avançou para US$ 1,555 trilhão, enquanto a expectativa para 2027 passou a apontar receita próxima de US$ 1,94 trilhão.
Por trás dessa aceleração está a ampliação da infraestrutura de IA, que aumenta a necessidade de processadores especializados, memória de alto desempenho, componentes de rede, gerenciamento de energia e tecnologias de interconexão capazes de sustentar ambientes computacionais cada vez maiores.
Inteligência artificial muda demanda por chips
A expansão da inteligência artificial está alterando a composição do mercado de semicondutores. Segundo o Gartner, o ecossistema relacionado aos data centers de IA deverá responder por 36,5% da receita do setor em 2026. Até 2030, essa participação poderá superar 53%, indicando uma mudança estrutural na origem da demanda por componentes eletrônicos.
Esse movimento acompanha os investimentos realizados por provedores de nuvem, fabricantes de hardware, empresas de inteligência artificial e operadores de grandes centros de processamento. O aumento da quantidade de modelos treinados e executados em escala exige uma infraestrutura formada por muito mais do que GPUs.
Clusters dedicados à inteligência artificial também dependem de CPUs, chips especializados para redes, dispositivos analógicos, componentes ópticos e sistemas avançados de gerenciamento energético. Conforme o tamanho dessas instalações aumenta, crescem simultaneamente as exigências relacionadas a processamento, conectividade, armazenamento e consumo de energia.
Dados do próprio Gartner mostram a dimensão dessa movimentação. O investimento global relacionado à inteligência artificial deverá chegar a US$ 2,59 trilhões em 2026, alta de 47% sobre o ano anterior. A infraestrutura otimizada para IA deverá representar mais de 45% desses gastos nos próximos anos, sustentada principalmente pela ampliação da capacidade dos provedores de tecnologia e hyperscalers.

Memória se torna protagonista da expansão
Outro componente fundamental para o crescimento do mercado de semicondutores está na memória. A receita desse segmento deverá alcançar US$ 837,3 bilhões em 2026, contra US$ 220,1 bilhões em 2025. Com isso, componentes de memória deverão representar aproximadamente 54% de toda a receita mundial de chips neste ano.
A mudança está diretamente relacionada ao aumento da demanda por DRAM, NAND e principalmente memória HBM, tecnologia utilizada em aceleradores de inteligência artificial para permitir transferência de grandes volumes de dados em alta velocidade.
A projeção aponta crescimento de 246,6% para a receita de DRAM em 2026, enquanto a receita ligada à memória NAND poderá avançar 371,9%. Mesmo com a expectativa de entrada de capacidade produtiva adicional em 2027, o Gartner avalia que o equilíbrio entre oferta e demanda continuará pressionado pelo avanço dos projetos de inteligência artificial.
Servidores voltados a treinamento e inferência utilizam volumes significativamente maiores de memória do que equipamentos tradicionais. Na prática, quanto maior o desenvolvimento da computação acelerada, maior também tende a ser a necessidade de componentes capazes de alimentar processadores com dados rapidamente.
Demanda se espalha por toda a infraestrutura tecnológica
Embora GPUs e memórias estejam entre os componentes mais associados ao crescimento da inteligência artificial, as oportunidades não ficam restritas aos fabricantes desses produtos.
Excluindo o segmento de memória, a receita mundial deverá avançar de US$ 589 bilhões em 2025 para aproximadamente US$ 718 bilhões em 2026, crescimento de 21,9%. Para 2027, o Gartner projeta aproximadamente US$ 864 bilhões em receitas nesse conjunto de componentes.
Isso amplia as oportunidades para companhias envolvidas no desenvolvimento de chips de IA, processadores, soluções de networking, circuitos de energia, componentes ópticos e outras tecnologias utilizadas na construção de data centers.
O cenário também explica por que grandes empresas de tecnologia estão aumentando investimentos em projetos próprios de hardware e estabelecendo novas parcerias na indústria. Garantir capacidade computacional deixou de ser uma discussão restrita à aquisição de servidores e passou a fazer parte das decisões relacionadas à expansão de serviços digitais e desenvolvimento de modelos de inteligência artificial.
Data centers ganham peso na cadeia de semicondutores
O avanço dos data centers de IA também aproxima ainda mais duas indústrias que já possuíam forte dependência entre si. A construção de grandes ambientes computacionais amplia diretamente a demanda por aceleradores, armazenamento, conectividade e sistemas responsáveis por fornecer energia aos equipamentos.
Para operadores de infraestrutura, provedores de nuvem e líderes de tecnologia, isso significa acompanhar não somente a disponibilidade de capacidade física nos data centers, mas também a cadeia de fornecimento dos equipamentos instalados nesses ambientes.
A forte concentração da expansão em componentes utilizados para inteligência artificial pode ainda influenciar preços, prazos de entrega e prioridades dos fabricantes. Em abril, o Gartner já apontava que os semicondutores ligados à IA poderiam responder por aproximadamente 30% da receita total do setor em 2026. A atualização de agosto reforçou ainda mais a expectativa de uma indústria progressivamente direcionada às necessidades da computação acelerada.
O avanço projetado para o mercado de semicondutores mostra, portanto, que o crescimento da inteligência artificial começa a produzir efeitos muito além do mercado de software. A corrida por capacidade computacional está alcançando toda a infraestrutura tecnológica, desde fábricas de memória e processadores até redes, energia e interconexões utilizadas nos grandes centros de processamento.
Com receita mundial próxima de US$ 1,6 trilhão prevista para 2026 e possibilidade de chegar a aproximadamente US$ 1,9 trilhão em 2027, a indústria de chips passa a ocupar posição ainda mais estratégica na expansão da economia digital.
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