
A evolução tecnológica, por si só, pode não ser suficiente para ampliar o alcance da proteção digital nas empresas. Durante o Mind The Sec, Nicole Garcia, gerente de produtos de cibersegurança da WDC Networks, defendeu que a próxima etapa de crescimento da indústria passa pela democratização da cibersegurança, com redução das barreiras que dificultam a compreensão, aquisição, implementação e operação das soluções.
O portal Itshow acompanhou a palestra “O próximo salto não é só tecnológico: por que democratizar a cibersegurança é a próxima curva de crescimento da indústria”, na qual Nicole analisou a distância entre a quantidade de tecnologias disponíveis e a capacidade de diferentes organizações de efetivamente incorporá-las às suas operações.
A discussão parte de uma contradição: enquanto novas soluções, funcionalidades e aplicações de inteligência artificial avançam, parte das empresas que já enfrenta riscos digitais ainda encontra dificuldades para acessar recursos de segurança.
“Ter uma solução hoje dez vezes melhor não significa que a gente vai ter necessariamente dez vezes mais mercado daqui pra frente”, afirmou Nicole.
Democratização da cibersegurança vai além do preço
Um dos principais pontos apresentados foi a necessidade de separar democratização de redução de preço. Segundo Nicole, tornar a segurança mais acessível não significa simplesmente oferecer produtos mais baratos. A questão envolve retirar obstáculos existentes ao longo de toda a jornada de consumo da tecnologia.
Essas barreiras começam na comunicação. Expressões técnicas e siglas podem fazer sentido para especialistas, mas nem sempre deixam claro para uma empresa qual problema está sendo resolvido e por que determinada tecnologia é necessária.
A palestrante exemplificou que uma organização pode depender diariamente de notebooks, e-mail, ERP e serviços em nuvem sem necessariamente compreender termos técnicos utilizados pelo mercado de segurança. Nesse cenário, comunicar o impacto da indisponibilidade ou de uma ameaça de maneira relacionada à operação pode facilitar a compreensão da necessidade de proteção.
“É muito importante que a gente consiga comunicar pro cliente exatamente a dor que ele tem”, disse Nicole.
A democratização da cibersegurança, portanto, também depende da capacidade da indústria de transformar complexidade técnica em uma comunicação compreensível, sem tornar o conteúdo simplista.
Processo de compra também pode limitar o acesso à segurança
A palestra avançou para outra barreira: a jornada de aquisição. Nicole chamou atenção para fatores como quantidade de fornecedores consultados, propostas analisadas, modelos de negociação, tempo necessário para provas de conceito e clareza sobre o que será entregue.
Mesmo quando a solução final é simples de utilizar, todo o processo anterior à implementação pode continuar complexo.
Essa dificuldade não termina na contratação. Implementação, operação e integração também fazem parte do problema. Uma tecnologia com diferentes funcionalidades perde parte de seu valor quando não é corretamente implantada ou quando a empresa não dispõe de estrutura para acompanhar alertas, logs e informações geradas pela ferramenta.
A compatibilidade com o ambiente existente é outro ponto destacado. Se uma solução não consegue se integrar às tecnologias já utilizadas pelo cliente, sua adoção pode se tornar inviável.
“Hoje pode ter soluções muito fáceis de gerenciar, muito fáceis de usar e ainda assim muito complexas de consumir”, afirmou Nicole.
Risco digital avançou antes do acesso à proteção
A digitalização das atividades pessoais e empresariais também apareceu como parte central da discussão. E-mails, sistemas corporativos, meios de comunicação, aplicações em nuvem e diferentes serviços digitais ampliaram a dependência tecnológica das organizações.
Essa expansão também aumenta a superfície de ataque e a complexidade dos ambientes que precisam ser protegidos.
Na avaliação apresentada durante a palestra, o risco conseguiu se democratizar mais rapidamente do que a própria segurança. Atacantes não diferenciam necessariamente suas vítimas pelo tamanho da organização, orçamento disponível ou domínio técnico.
Do outro lado estão empresas que reconhecem suas vulnerabilidades e sabem que precisam melhorar a proteção, mas ainda enfrentam dificuldades de acesso à informação, produtos, serviços ou conhecimento especializado.
A democratização da cibersegurança surge, nesse contexto, como uma questão de alcance do próprio mercado: como levar recursos existentes a organizações que já possuem demanda, mas ainda não conseguem consumi-los de forma adequada.
Ecossistema pode determinar capacidade de escala
Para explicar como tecnologias complexas podem alcançar públicos maiores, Nicole fez uma comparação com a expansão da internet no Brasil. A palestra destacou o papel desempenhado pelos provedores regionais na ampliação da capilaridade da conectividade.
O paralelo apresentado é que a tecnologia isoladamente cria capacidade, mas não necessariamente escala. Para alcançar mais organizações, a cibersegurança depende de um ecossistema formado por fabricantes, distribuidores, canais, integradores e serviços.
“Esse produto sozinho, ele não cria escala. A gente não consegue fazer com que isso escale, que isso amplie, que isso chegue a todo mundo que precisa, sem um ecossistema por trás”, explicou.
Nesse modelo, fabricantes continuam responsáveis pela evolução dos produtos e pela criação de funcionalidades adequadas às novas ameaças. Entretanto, facilidade de administração e gerenciamento também passam a ter peso na capacidade de adoção.
Distribuidores aparecem como responsáveis por compreender quais partes de portfólios globais fazem sentido para diferentes segmentos e adaptar a forma como essas tecnologias são apresentadas ao mercado brasileiro. Canais e integradores, por sua vez, ocupam uma posição próxima ao cliente e ajudam a transformar produtos em resultados aplicáveis à operação.
Empresas buscam resultado, não apenas ferramentas
Outro ponto defendido durante a apresentação foi que o cliente final não necessariamente procura uma categoria específica de produto. Sua demanda está relacionada ao resultado que a tecnologia consegue entregar.
Essa mudança de perspectiva ajuda a explicar por que a democratização da cibersegurança envolve mais do que disponibilizar ferramentas. A solução precisa estar associada a implementação, suporte, integração e operação compatíveis com a realidade da organização.
A experiência digital também pode contribuir para esse processo. Reduzir o tempo de cotação, contratação, instalação e entrega permite acelerar o momento em que a empresa começa efetivamente a utilizar a proteção adquirida.
A consequência esperada de uma jornada com menos barreiras é ampliar adoção, recorrência e capacidade de levar novas funcionalidades a organizações que ainda permanecem distantes das soluções disponíveis.
Próxima curva da cibersegurança pode estar no acesso
Ao encerrar a palestra, Nicole retomou a ideia apresentada no início: o avanço da indústria não depende apenas de desenvolver tecnologias mais sofisticadas.
O desafio também está em transformar capacidade tecnológica em escala. Isso significa fazer com que empresas que já reconhecem riscos e necessidades consigam entender, adquirir, implementar, integrar e operar soluções de segurança.
“Talvez o próximo passo da cibersegurança e do nosso mercado não seja só falar de tecnologia. O nosso papel aqui é fazer toda a capacidade que a gente tem hoje se transformar em escala”, concluiu.
A discussão apresentada no Mind The Sec coloca a democratização da cibersegurança como um desafio para toda a cadeia. Em um cenário de crescente dependência digital, ampliar o mercado passa não apenas pela inovação dos produtos, mas pela capacidade de reduzir a distância entre a tecnologia disponível e as organizações que precisam utilizá-la.

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