Edgard Mitre, diretor executivo da EMX Tecnologia

A transformação digital do agronegócio amplia a pressão sobre governança de dados, conformidade e inteligência aplicada à gestão. Em meio à expansão de operações distribuídas, múltiplos fornecedores e exigências regulatórias, empresas do setor passam a tratar a estrutura informacional como base para eficiência, rastreabilidade e escala.

No agro, dados organizados deixam de ser suporte e passam a sustentar eficiência, segurança e decisão

Em entrevista exclusiva, Edgard Mitre, diretor executivo da EMX Tecnologia, afirmou que “a transformação digital do agronegócio vem reposicionando a governança de dados como elemento central da estratégia empresarial”. Segundo o executivo, o setor vive uma mudança acelerada, impulsionada por dados, inteligência artificial, rastreabilidade e novas exigências de conformidade, o que eleva o papel da gestão informacional dentro das companhias.

Na avaliação de Mitre, a discussão já não se limita à proteção da informação. “O agro hoje já não é mais apenas produção; é também tecnologia, análise preditiva, rastreabilidade e conformidade”, disse. A leitura reforça uma mudança de prioridade nas organizações do setor, que passam a enxergar a governança de dados no agro como alicerce para ganho de eficiência, maior controle operacional e apoio mais consistente à tomada de decisão.

Governança deixa de ser apenas compliance e passa a influenciar a estratégia

Ao comentar a evolução desse tema dentro das empresas, Edgard Mitre observou que “durante muito tempo, governança foi vista apenas como uma exigência de compliance, algo necessário para atender normas e evitar riscos”. Esse entendimento, no entanto, perde força à medida que a operação se torna mais dependente de dados confiáveis, processos integrados e visibilidade em tempo real.

Para o executivo, “governança bem estruturada transforma dados em ativos estratégicos” e permite que a companhia reduza retrabalho, elimine desperdícios e acelere decisões. No agronegócio, onde diferentes áreas precisam operar de forma coordenada, essa base passa a ter impacto direto sobre produtividade, planejamento e capacidade de resposta.

Edgard Mitre acrescentou que a governança não deve ser tratada como custo ou obrigação periférica. “Na EMX, a gente trata governança não como custo ou obrigação, mas como base para eficiência, escala e inteligência no negócio”, afirmou. A visão se alinha a um movimento mais amplo do mercado, no qual a organização dos dados se torna condição necessária para competir com consistência.

Falta de visibilidade sobre dados sensíveis amplia exposição

Outro ponto destacado na entrevista foi a dificuldade de muitas organizações em localizar, classificar e monitorar informações sensíveis espalhadas por ambientes diversos. “As informações estão espalhadas em arquivos, e-mails, servidores, nuvens, sistemas legados; muitas vezes; sem classificação, sem controle e sem visibilidade”, afirmou Mitre.

Segundo ele, esse cenário cria riscos simultâneos para segurança, jurídico, infraestrutura e privacidade. “Você só consegue proteger, governar ou estar em conformidade com aquilo que você conhece. E quando os dados sensíveis estão invisíveis, o risco é enorme”, disse. A declaração reforça por que a LGPD no agro passa a ganhar peso dentro da agenda executiva, especialmente em empresas com operações distribuídas e alto volume de dados em circulação.

Edgard explicou que, sem essa visibilidade, a companhia perde não apenas controle, mas também capacidade de decidir melhor o destino de seus ativos informacionais. “A empresa perde a capacidade de tomar decisões inteligentes sobre seus dados: o que pode ser descartado, o que precisa ser protegido, o que pode gerar valor”, afirmou.

IA na governança amplia escala e muda a lógica de atuação

Ao abordar o uso de inteligência artificial aplicada à descoberta e classificação de riscos, o executivo destacou que a principal mudança está na capacidade de escalar análises com mais velocidade e precisão. “Quando a IA passa a atuar diretamente na identificação e classificação de riscos, a principal mudança é a escala com inteligência”, declarou.

Segundo Edgard Mitre, tarefas antes manuais e limitadas passam a ser contínuas, automatizadas e mais consistentes. “A IA consegue analisar grandes volumes de dados não estruturados, identificar padrões, reconhecer dados sensíveis e classificar esses riscos de forma muito mais rápida e consistente”, afirmou. Para ele, esse avanço reduz dependência de processos operacionais, diminui falhas humanas e fortalece a confiabilidade das iniciativas de governança.

Ao mesmo tempo, ele alertou que a tecnologia depende de uma base sólida para entregar resultado. “A IA só gera valor quando está apoiada em dados organizados, confiáveis e governados. Sem isso, o risco é automatizar erros”, disse.

Complexidade do agro reforça necessidade de integração

Mitre também relacionou a necessidade de plataformas integradas à própria natureza operacional do agronegócio. “No agronegócio, a complexidade é estrutural. Estamos falando de operações distribuídas geograficamente, múltiplos parceiros e fornecedores, diferentes sistemas e um volume enorme de dados sendo gerados o tempo todo”, afirmou.

Na prática, segundo ele, isso aumenta o risco de fragmentação informacional e compromete a leitura consolidada da operação. “Quando os dados estão dispersos e não se comunicam, a empresa perde visibilidade, controle e agilidade. Isso impacta diretamente a eficiência operacional, a rastreabilidade e a capacidade de tomada de decisão”, disse.

O executivo defendeu que a integração é o caminho para consolidar indicadores, padronizar processos e responder mais rapidamente às mudanças do ambiente. “Sem dados organizados e conectados, não há inteligência que gere valor”, afirmou. A observação se conecta diretamente ao debate sobre governança de dados no agro, hoje cada vez mais próximo de temas como resiliência operacional, rastreabilidade e crescimento sustentável.

Ferramentas isoladas comprometem eficiência e aumentam risco

Ao falar sobre a manutenção de planilhas paralelas e sistemas desconectados, Edgard Mitre afirmou que o problema vai além da improdutividade. “Manter uma gestão fragmentada, baseada em planilhas paralelas e ferramentas desconectadas, traz riscos que vão muito além da ineficiência, afetam diretamente a estratégia do negócio”, disse.

Ele apontou que ambientes fragmentados dificultam a consistência dos dados, aumentam retrabalho, elevam dependência de pessoas-chave e prejudicam a padronização da informação. “Sem uma visão integrada, a empresa toma decisões com base em dados incompletos ou desatualizados”, afirmou. Para o executivo, isso compromete planejamento, investimentos e a própria capacidade de reação ao mercado.

Na dimensão regulatória, o impacto também se amplia. “Em ambientes fragmentados, é muito mais difícil garantir controle, rastreabilidade e conformidade”, observou. A centralização, segundo ele, precisa ser tratada como decisão estratégica, e não como mera reorganização operacional.

LGPD passa a dialogar com confiança e expansão de negócios

Edgard também chamou atenção para a leitura ainda limitada que muitas empresas fazem da privacidade. “A LGPD deixa de ser apenas uma obrigação quando a empresa passa a enxergar dados como um ativo estratégico e não como um risco a ser evitado”, declarou.

Para ele, companhias que demonstram responsabilidade no tratamento das informações fortalecem a confiança com clientes, parceiros e mercado. “Empresas que demonstram transparência, controle e responsabilidade no uso dessas informações saem na frente”, disse. Essa lógica aproxima a LGPD no agro de temas como reputação, expansão comercial e geração de novas oportunidades.

O executivo acrescentou que conformidade bem implementada também melhora a operação interna. “Reduz riscos, evita retrabalho, organiza processos e dá mais clareza sobre como os dados podem ser utilizados para gerar valor”, afirmou. Dessa forma, a privacidade passa a integrar não apenas a agenda jurídica, mas também a estratégia de crescimento e relacionamento.

2026 deve consolidar governança contínua e automação preditiva

Ao projetar tendências para 2026, Edgard Mitre apontou para um avanço da governança em tempo real e da automação preditiva. “Sai o modelo estático e entra uma governança contínua, com visibilidade dinâmica sobre riscos, acessos e uso da informação”, afirmou.

Ele também prevê maior integração entre plataformas e uso mais disseminado de inteligência em diferentes áreas da empresa. “As empresas vão reduzir o número de ferramentas e buscar soluções mais integradas, que conectem governança, segurança, compliance e gestão em um único ecossistema”, disse. Além disso, destacou que a informação tende a deixar de ficar restrita à TI para apoiar decisões distribuídas pelo negócio.

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