Fábio Farias, advogado, especialista em direito digital e representante do Instituto Navegue Bem

Durante o Itshow on the Road, Marcio Montagnani conversou com Fábio Farias, advogado, especialista em direito digital e representante do Instituto Navegue Bem, sobre os desafios de promover educação digital, segurança na internet e conscientização de crianças, adolescentes, famílias e educadores diante do avanço dos crimes cibernéticos. Gravada durante o SecOps Summit 2026, em Porto Alegre, a entrevista trouxe reflexões sobre letramento digital, inclusão, formação de novos talentos em tecnologia e o papel do setor privado no apoio a iniciativas de impacto social ligadas à proteção no ambiente online.

Segundo Fábio Farias, a criação do instituto nasceu da percepção de uma lacuna recorrente no contato com casos ligados a crimes cibernéticos envolvendo menores. A partir dessa vivência, ele decidiu transformar a preocupação em ação concreta, primeiro em escolas e faculdades rurais da região metropolitana de Belo Horizonte e, depois, em um modelo mais estruturado de atuação social e educacional.

O ponto central da iniciativa é simples de entender, mas difícil de executar em escala: falar de segurança digital para públicos distintos sem cair no excesso de tecnicismo. Na avaliação de Fábio Farias, o desafio não está apenas em alertar sobre riscos, mas em traduzir o universo da tecnologia para uma linguagem compreensível por crianças, adolescentes, famílias e professores. Essa escolha ajuda a explicar por que o Instituto Navegue Bem tem buscado combinar conscientização, capacitação e presença territorial em comunidades que normalmente ficam fora do eixo mais visível das discussões sobre transformação digital.

Educação digital deixa de ser pauta periférica

Ao narrar a origem do projeto, Fábio Farias afirma que a motivação ganhou força a partir da observação do crescimento de ocorrências ligadas a crimes digitais contra crianças e adolescentes. Em vez de tratar o problema apenas como tema jurídico ou policial, ele decidiu abordá-lo como uma questão de educação e prevenção. Foi esse movimento que levou o instituto a iniciar atividades em regiões afastadas dos grandes centros, com foco em orientação e acesso.

A entrevista mostra que o projeto também passou a incorporar uma dimensão de formação para o futuro do trabalho. Fábio relata que, no fim de 2024, promoveu a capacitação de 20 jovens em inteligência artificial em uma comunidade de Minas Gerais, conectando proteção digital e desenvolvimento de competências para entrada no mercado. A lógica é relevante para o setor: não se trata apenas de reduzir exposição a riscos, mas de criar repertório para que novos profissionais consigam acessar oportunidades em tecnologia de forma mais preparada.

Essa discussão ganha peso extra em um mercado que segue pressionado por escassez de talentos. A Brasscom aponta que o macrossetor de TIC pode gerar entre 30 mil e 147 mil empregos formais no Brasil, ao mesmo tempo em que persiste um descompasso entre demanda e oferta de profissionais. Dentro desse contexto, iniciativas de base passam a dialogar não apenas com cidadania digital, mas também com estratégia de longo prazo para formação de mão de obra.

Crescimento rápido, mas com barreiras conhecidas

Fábio afirma que o Instituto Navegue Bem começou com nove embaixadores e hoje reúne mais de 42 representantes em 11 estados, com presença concentrada no Sul e Sudeste. O dado ajuda a explicar a velocidade de expansão da iniciativa, mas a entrevista também deixa claro que esse crescimento vem acompanhado de obstáculos clássicos de projetos de impacto: financiamento, padronização de conteúdo, apoio institucional e capacidade de adaptação da mensagem a diferentes públicos.

Entre as experiências relatadas, uma das mais emblemáticas ocorreu em uma escola municipal de Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Segundo Fábio Farias, o projeto acompanhou durante um ano um grupo de 40 adolescentes, com encontros periódicos e aulas gratuitas. No encerramento, mais de 300 estudantes participaram de uma atividade voltada ao debate sobre tecnologia, futuro profissional e oportunidades no setor. Para ele, a experiência mostrou que o interesse existe, desde que a abordagem seja adequada e conectada à realidade dos jovens.

Na leitura do entrevistado, a barreira da linguagem continua sendo uma das mais sensíveis. O instituto decidiu enfrentar esse ponto com treinamento de embaixadores e material padronizado, para garantir clareza e consistência. A avaliação é que, sem essa mediação, a pauta de segurança digital corre o risco de ficar restrita a especialistas, quando deveria alcançar justamente os públicos mais vulneráveis.

Empresas de tecnologia entram no radar do projeto

Um dos recados mais diretos da entrevista é dirigido à alta liderança de tecnologia e aos fornecedores do setor. Fábio afirma que a recepção do mercado tem sido positiva, especialmente porque o tema mobiliza profissionais que, além de executivos, também são pais, mães ou responsáveis e compreendem a sensibilidade do problema.

Segundo ele, as empresas começam a perceber que apoiar iniciativas desse tipo não representa apenas associação de marca, mas conexão com uma agenda social concreta. O instituto passou a estruturar formas de patrocínio e contrapartidas institucionais, incluindo selo de empresa parceira e presença da marca em seus materiais. Na prática, trata-se de um modelo que aproxima a agenda de proteção digital infantil de pautas corporativas como responsabilidade social, reputação e ESG.

Essa ponte entre tecnologia e impacto social aparece como um dos elementos mais fortes da entrevista. Ao defender maior engajamento do setor, Fábio Farias sugere que a discussão sobre segurança não pode se limitar à proteção de infraestruturas, dados e operações. Ela também precisa incluir a formação de usuários mais conscientes e a proteção das novas gerações em um ambiente online cada vez mais complexo.

Cartilha, mascote e inclusão ampliam a frente educacional

Durante o SecOps Summit 2026, o instituto lançou a cartilha “O Incrível Mundo de BEM, o protetor digital”, apresentada como um material educativo voltado à conexão com crianças e adolescentes. O mascote BEM, segundo Fábio, foi desenhado por um adolescente, justamente para facilitar identificação com o público. A proposta inclui ainda elementos de inclusão, com personagens pensados também a partir da participação de crianças autistas, além do apoio de psicopedagogas no desenvolvimento do conteúdo.

Em paralelo, o projeto também passou a oferecer uma cartilha orientativa para pais, responsáveis e educadores, ampliando o alcance da iniciativa para além do público infantojuvenil. Segundo o entrevistado, ao longo de 2025 o instituto impactou 12 mil crianças e adolescentes e 416 professores e educadores, números que ajudam a dimensionar a ambição da proposta para 2026.

Siga o Itshow no LinkedIn e assine a nossa News para ficar por dentro de todas as notícias do setor de TI e Cibersegurança!