
Em 20 de março de 2026, Pavan Davuluri, chefe da divisão Windows, publicou uma declaração intitulada “Nosso compromisso com a qualidade do Windows”, em tradução livre. Na postagem, a Microsoft promete melhorar vários aspectos do Windows 11 em prol da experiência do usuário. Mas, afinal, o que há de errado com esse sistema operacional para ele ser tão criticado?
A causa não envolve só questões técnicas. As expectativas dos usuários também entram nessa conta. Este ponto, aliás, é a origem do conflito. Como você verá a seguir, há um evidente descompasso entre como a Microsoft espera que as pessoas lidem com Windows 11 e como, de fato, elas usam o sistema.
O Windows 10 tem “culpa”
O Windows 11 foi lançado oficialmente em 5 de outubro de 2021. À época, muita gente aderiu à novidade por ser algo… novo. A Área de Trabalho reformulada, que centraliza a Barra de Tarefas por padrão e fez o Menu Iniciar parecer mais versátil (sem ser), bem como o padrão visual mais moderno, atraíram curiosos e entusiastas.
Também era possível fazer upgrade gratuito para a nova versão a partir do Windows 10, desde que o PC atendesse aos requisitos de hardware. Isso também contribuiu para o Windows 11 conquistar adeptos na fase inicial.
Mas não chegou a haver uma “onda migratória”. Depois que o ar de novidade se dissipou, muita gente simplesmente não sentiu necessidade de mudar para o Windows 11. Não foi, necessariamente, por resistência ao novo, mas devido à percepção de que esse “novo” não era vantajoso ou, pior, causaria um decréscimo de experiência.
É como ter uma poltrona confortável para ver futebol na TV. Ela reclina, é macia, tem resistência e conta até com suporte para bebida. Um dia, alguém te oferece uma poltrona mais moderna, com massageador. Você troca. A massagem é boa. Mas aí você percebe que a nova poltrona não é tão confortável quanto a anterior. E você não quer saber de massagem enquanto assiste ao jogo.
Certamente você percebeu que, aqui, a poltrona antiga é o Windows 10. Essa versão do sistema pode não ser tão requintada quanto o Windows 11, mas é confortável porque funciona a contento. E funciona porque o Windows 10 cumpriu uma missão nobre: resolver os problemas de seus antecessores.

Lançado em 2012, o Windows 8 foi, digamos, trágico. A interface Metro dessa versão tentava sobrepor uma experiência de tela sensível a toques ao desktop convencional. Por conta disso, o Menu Iniciar perdeu espaço, aplicativos abriam em tela cheia desnecessariamente e, muitas vezes, era até difícil usar a clássica combinação de mouse com teclado.
Em 2013, a Microsoft tentou amenizar a situação com o Windows 8.1, que trazia o Menu Iniciar de volta (em uma versão ainda baseada em blocos ou “Tiles”, mas trazia) e restaurava o acesso direto à Área de Trabalho. Mas o sistema operacional continuava sendo confuso.
A salvação só veio em 2015, quando o Windows 10 chegou. Ainda que essa versão não fosse perfeita, ela tornou o Menu Iniciar e a Barra de Tarefas mais amigáveis, foi mais competente em separar as experiências de desktop e de tela sensível a toques, e implementou um padrão visual sóbrio, mas ainda moderno.
Mas, talvez, o maior trunfo do Windows 10 foi ser estável. A Microsoft conseguiu lapidar bem o sistema para que ele trabalhasse até com hardware mais simples — os requisitos mínimos desse sistema eram praticamente os mesmos exigidos no Windows 7 —, ainda que esse atributo só tenha sido conquistado com o passar do tempo.

O Windows 10 acabou sendo bem aceito, de modo geral. Mas a Microsoft não estava satisfeita. A companhia tinha planos maiores para essa versão, mas ela ainda estava presa a um modelo de operação clássico, que parecia engessado frente ao trabalho que a Apple fazia (e ainda faz) com relação ao macOS ou até que o Google fez com o ChromeOS.
Como, para todos os efeitos, o Windows 10 ainda era um remédio para os problemas de seus antecessores, ele não comportaria mudanças drásticas. Se era para pensar grande, um novo sistema deveria ser lançado. O Windows 11 apareceu em 2021 para abrir essa porta. Só que a Microsoft tocou o projeto sem dar a devida atenção às expectativas dos usuários.
Afinal, quais são os pecados do Windows 11?
O Windows 11 foi lançado em outubro de 2021, mas usuários reclamavam de algumas mudanças já nas versões prévias do sistema operacional. Uma delas foi a exigência do TPM 2.0. Embora este seja um importante recurso de segurança, muita gente viu o requisito como uma forma de a Microsoft forçar a compra de PCs novos, pois o componente não existe em máquinas antigas (em geral, fabricadas antes de 2017).
Para aqueles que conseguiram migrar para o Windows 11 ou, de fato, compraram um computador novo, alguns conflitos de experiência surgiram de imediato, reforçando algumas das queixas antecipadas durante o período de prévias.

Dou um exemplo de algo que incomodou a mim. Por causa do meu trabalho, vivo fazendo capturas de tela. No Windows 10, basta pressionar a tecla Print Screen e colar o resultado em um editor de imagem. No Windows 11, o mesmo botão abre a Ferramenta de Captura, que tem vários recursos úteis, mas me é muito menos ágil com esse trabalho.
Questão de costume ou reconfiguração? Talvez. Seja como for, essa é uma fricção particular. Mas é diferente com a Barra de Tarefas. Não demorou para os usuários perceberem que ela ficou limitada, não permitindo ser movida para outros pontos da Área de Trabalho, tendo um relógio que não exibe segundos e um calendário que, basicamente, só exibe datas, sem permitir agendamentos.
E aí veio o Menu Iniciar. Ele exibe ícones mais dispersos entre si, parece ser um pouco mais lento em relação ao Windows 10, e tem recomendações de aplicativos ou arquivos muitas vezes desnecessários, sem contar que ele é menos personalizável. É verdade que a Microsoft acabou atenuando a bagunça do Menu Iniciar do Windows 11. Mesmo assim, ainda prefiro a versão do Windows 10.

Ao falar de “mais lento” no parágrafo acima, lembrei de outro problema: no início, o Windows 11 parecia ser mais instável na comparação com o Windows 10. Isso ficou mais perceptível para quem migrou de um para o outro no mesmo computador. Hoje, a situação é bem melhor. Mas, às vezes, ainda me parece que falta algum ajuste fino durante a execução de jogos, por exemplo.
Podemos ainda listar probleminhas (ou problemões) como:
- condicionar a instalação do Windows 11 a uma conta Microsoft;
- as várias tentativas da Microsoft de empurrar o Edge para o usuário (hoje, menos, felizmente);
- liberação de recursos que demora para chegar a todos os usuários, gerando fragmentação funcional (o Windows 11 de um PC parece nunca ser igual ao de outro);
- problemas recorrentes em atualizações do sistema (isso aconteceu com outras versões, mas escalou com o Windows 11 nos últimos meses);
- para fechar, a Microsoft exagerou na tentativa de integrar o Copilot ao Windows 11, tanto que ficou parecendo que aprimoramentos importantes ficaram em segundo plano (só faltou ter Copilot na tela azul que agora é preta).

O Windows 11 tem salvação?
Se a Microsoft quiser, sim. Até porque o Windows 11 já tem quase cinco anos de mercado e, nesse meio tempo, passou por aprimoramentos. Eu acho que a companhia tem feito um trabalho muito bom com o Windows Subsystem for Linux (WSL), por exemplo.
Consideremos também que, na publicação de Pavan Davuluri e em anúncios posteriores, a Microsoft prometeu mudanças, ainda para 2026, que vão levar o Windows 11 a um nível de amadurecimento notável se as promessas forem cumpridas. Entre elas, estão:
- Barra de Tarefas que voltará a ser móvel e mais personalizável;
- Menu Iniciar com recomendações mais relevantes, além de acesso mais consistente a aplicativos e arquivos;
- integração menos forçada com recursos de IA (tenho minhas dúvidas quanto a isso, mas ok);
- Explorador de Arquivos mais rápido e confiável;
- mais controle do usuário sobre o Windows Update;
- no desempenho, um Windows 11 mais responsivo, consistente e confiável, o que envolve menor latência em menus e mais cuidados com drivers, por exemplo;
- mais controle sobre os widgets (quase sempre irritantes ou irrelevantes), menos notificações ou distrações em geral.

Quem acompanha as novidades do Windows 11 por meio do programa de testes Windows Insider nota o esforço da Microsoft para cumprir as promessas. Então, “não deixai toda a esperança, vós que entrais”.
O que ainda alimenta alguma desconfiança é que a Microsoft demorou para admitir os problemas do Windows 11. Parece que o choque de realidade só veio depois que o MacBook Neo fez algum barulho (e ele não é tão impressionante) e, antes disso, com incômodos como o causado pelo SteamOS (quem disse que precisamos do Windows para jogar?).
Não precisava ter chegado a tal ponto. A essa altura, a imagem do Windows 11 seria muito mais positiva se a Microsoft tivesse prestado atenção às demandas dos usuários. E olha que a empresa tem um ótimo canal para isso: o já mencionado Windows Insider, com os seus engajados participantes.
De todo modo, o clima é de “agora vai”. Veremos.
O drama do Windows 11: o que deu errado para a Microsoft prometer salvá-lo?