
A Agrishow 2026, realizada em Ribeirão Preto (SP), colocou em evidência um dos maiores gargalos do agronegócio brasileiro: dois terços das propriedades rurais do país ainda não têm acesso à internet. Durante a feira, empresas como Marispan e Excel apresentaram soluções que operam sem conexão contínua, enquanto a parceria entre Excel e Starlink promete levar internet via satélite de baixa órbita a regiões sem infraestrutura tradicional, sinalizando uma corrida por conectividade rural que remodela o mercado de TI, IoT e cibersegurança no campo.
O agronegócio brasileiro enfrenta um paradoxo de alto risco: é um dos setores mais produtivos do mundo, mas opera com infraestrutura digital do século passado. A Agrishow 2026, realizada em Ribeirão Preto (SP), escancarou esse problema e mostrou que o mercado de tecnologia já se movimenta para preencher esse vácuo.
O gargalo que custa produtividade e abre brechas de segurança
Dois terços das propriedades rurais brasileiras ainda não têm acesso à internet. O número é alarmante quando comparado aos Estados Unidos, onde 70% das áreas rurais já estão conectadas, contra apenas 33% no Brasil. Para executivos de TI, esse dado não é apenas um problema de infraestrutura: é um risco operacional e de segurança que cresce à medida que o campo adota sensores, máquinas autônomas e sistemas de gestão conectados.
A presidente da ConectarAgro, Paola Campiello, foi direta no diagnóstico durante a feira. Segundo ela, a conectividade rural é fator determinante para aumentar produtividade, reduzir custos e consolidar a chamada Agricultura 4.0 no Brasil. Sem conexão, não há agricultura de precisão. Sem precisão, há desperdício. E sem visibilidade dos sistemas, há exposição.
Soluções offline-first ganham espaço e abrem nova categoria de mercado
A resposta imediata da indústria veio em dois formatos: tecnologias que funcionam sem internet contínua e infraestrutura de conectividade rural que chega onde as redes tradicionais não alcançam.
A Marispan apresentou uma adubadora com controle digital via smartphone que dispensa conexão constante. O sistema permite programar múltiplas máquinas em diferentes pontos da propriedade de forma simultânea, operando de forma autônoma mesmo em zonas sem sinal. Já a Excel trouxe uma solução de rastreamento de consumo de diesel em frotas agrícolas, com monitoramento completo desde a distribuidora até o uso no campo.
Para o mercado de TI corporativo, essas soluções representam uma categoria emergente: hardware e software offline-first, com sincronização posterior. A lógica é familiar para quem trabalha com edge computing, mas sua aplicação no agronegócio em escala ainda está nos estágios iniciais, o que significa oportunidade e risco simultâneos.
Starlink e 4G aceleram a infraestrutura e ampliam a superfície de ataque
No front de infraestrutura, o movimento mais relevante veio da parceria firmada entre a Excel e a Starlink, empresa de satélites de baixa órbita da SpaceX. O objetivo é levar internet de alta velocidade a propriedades rurais sem acesso a fibra ou cabo, um segmento que representa um mercado expressivo no Brasil.
A TIM também avança nesse cenário. A operadora já cobre cerca de 26 milhões de hectares rurais com rede 4G, beneficiando mais de 2,6 milhões de pessoas no campo. Os resultados práticos são concretos: em Água Boa (MT), a chegada da conectividade 4G foi acompanhada de um aumento de 10% na produtividade, de 55 para 75 sacas por hectare, e redução de 32% no consumo de combustível.

O Indicador de Conectividade Rural da ConectarAgro e da UFV registrou avanço significativo: a cobertura de redes móveis em áreas rurais saltou de 18,7% para 33,9% entre 2024 e 2025. O crescimento é expressivo, mas ainda deixa a maioria do território agrícola desconectado.
Para profissionais de cibersegurança, essa expansão acelerada acende um alerta. A chegada de internet a ambientes que historicamente operavam isolados e que, portanto, nunca desenvolveram maturidade em segurança digital, cria uma superfície de ataque extensa e pouco protegida. Sensores IoT agrícolas, drones, sistemas de irrigação automatizados e plataformas de gestão passam a ser vetores potenciais de intrusão em infraestruturas críticas ligadas à produção de alimentos.
O impacto direto para TI e cibersegurança corporativa
Os números do setor confirmam que o movimento é irreversível. Segundo dados da CNA e do Cepea-USP, os investimentos em tecnologia no agronegócio devem atingir R$ 25,6 bilhões em 2026, crescimento de 21% em relação ao ano anterior. A própria Agrishow 2025 registrou R$ 14,6 bilhões em intenções de negócios, com crescimento de 7% e mais de 197 mil participantes.
Esse volume de capital em movimento significa contratos, projetos e decisões de compra que passam pelas mesas de CIOs e CISOs. A demanda por provedores de internet rural, integradores de sistemas IoT, plataformas de edge computing e especialistas em segurança de ambientes operacionais (OT) deve crescer de forma consistente nos próximos anos.
O desafio para os líderes de TI é duplo. Primeiro, garantir que a infraestrutura de conectividade rural seja implantada com protocolos robustos de autenticação e criptografia desde o início, e não como correção posterior. Segundo, proteger dados agronômicos sensíveis, como mapas de solo, históricos de produtividade e informações de insumos, que passam a circular em redes ainda imaturas do ponto de vista de segurança.
A Agrishow 2026 não foi apenas uma feira de máquinas e sementes. Foi um termômetro de uma transformação digital que chega tarde ao campo brasileiro e que, justamente por isso, comprime em poucos anos um ciclo de adoção que em outros setores levou décadas. Para o mercado de TI, a janela de oportunidade está aberta. A pergunta é se a segurança conseguirá acompanhar o ritmo da conexão.
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