
Instituições financeiras ao redor do mundo podem levar até 12 dias para restaurar aplicações críticas após um ataque cibernético (Recuperação Cibernética), segundo o estudo ‘The State of Cyber Resilience’, conduzido pela Everpure com base em dados do Instituto Ponemon e divulgado em agosto de 2026. O levantamento expõe uma falha estrutural grave: os planos de recuperação tradicionais do setor bancário foram desenhados para desastres físicos e falhas operacionais, não para ataques cibernéticos direcionados, colocando em risco a continuidade de serviços essenciais para milhões de clientes e o cumprimento de exigências regulatórias.
Doze dias. Esse é o tempo que um banco pode levar para restaurar suas aplicações críticas após sofrer um ataque cibernético. O dado, revelado pelo estudo The State of Cyber Resilience, conduzido pela Everpure com base em análises do Instituto Ponemon, coloca em xeque a maturidade do setor financeiro diante de uma ameaça que cresce em ritmo acelerado.
Para executivos de TI e cibersegurança, o número não é apenas alarmante. É um indicador de que a resiliência cibernética bancária ainda opera em modelos ultrapassados, pensados para apagões de infraestrutura e não para ataques sofisticados e coordenados.
Por que os planos tradicionais de recuperação falharam
Durante décadas, os planos de recuperação de desastres do setor bancário foram calibrados para cenários de indisponibilidade física: quedas de energia, falhas de hardware, interrupções de rede. O problema é que esses modelos não foram projetados para lidar com ataques cibernéticos direcionados.
Quando um ransomware compromete os dados de uma instituição financeira, a questão não é apenas restabelecer sistemas. É garantir que os dados recuperados estejam íntegros, livres de contaminação e prontos para operar em conformidade regulatória. Esse processo é radicalmente diferente e muito mais complexo.
O estudo aponta que 31% do custo total de um ataque cibernético está diretamente relacionado à recuperação de dados íntegros e atualizados. Ao mesmo tempo, apenas 41% das organizações financeiras afirmam ter confiança na gestão de dados distribuídos entre diferentes ambientes. Esse índice revela uma fragilidade estrutural que o setor não pode mais ignorar.
Um setor cada vez mais na mira dos criminosos
O cenário se agrava quando se observa o volume crescente de ataques contra o setor financeiro. Entre 2024 e 2025, as ocorrências globais contra instituições bancárias cresceram 115%, atingindo 1.858 incidentes registrados. No Brasil, o quadro é ainda mais crítico.
Dados do Check Point Security Report 2025 indicam que instituições financeiras brasileiras sofreram, em média, 1.752 ataques semanais por organização entre setembro de 2024 e fevereiro de 2025. O Banco Central, por sua vez, registrou 68 incidentes cibernéticos no sistema financeiro nacional apenas entre janeiro e outubro de 2025, superando os 59 de todo o ano anterior.
As consequências financeiras são igualmente expressivas. Estudos da Febraban apontam que ataques hackers causaram perdas de aproximadamente R$ 2,3 trilhões no Brasil em 2024. Diante desse cenário, a pressão sobre as lideranças de TI para reformular suas estratégias de resiliência cibernética bancária é intensa e urgente.
E quando o ataque ocorre, o comportamento das instituições revela outra dimensão do problema. Segundo pesquisa da Cohesity em parceria com a Vanson Bourne, 79% das instituições financeiras globais que sofreram ataques optaram por pagar o resgate exigido pelos criminosos. No Brasil, esse índice chegou a 84%, segundo levantamento da Cohesity de 2025. Pagar o resgate não garante a recuperação dos dados e ainda financia novas operações criminosas.
O conceito de Minimum Viable Bank como resposta estratégica
Diante da insuficiência dos modelos tradicionais, o estudo da Everpure propõe uma abordagem diferente: o conceito de Minimum Viable Bank, ou MVB. A ideia central é simples, mas poderosa. Em vez de tentar recuperar tudo ao mesmo tempo, o banco define previamente quais serviços precisam ser retomados primeiro.
Pagamentos, acesso a contas, canais digitais e cumprimento de requisitos regulatórios entram no topo dessa lista. Com esse mapa claro, a instituição pode direcionar seus recursos de recuperação de forma cirúrgica, reduzindo o tempo de inatividade nos pontos de maior impacto para clientes e reguladores.
Trata-se de uma mudança de paradigma. A resiliência cibernética bancária deixa de ser tratada como uma resposta reativa a incidentes e passa a ser planejada como parte da continuidade operacional do negócio. Não é sobre prevenir todos os ataques, já que isso não é mais viável. É sobre garantir que, quando o ataque acontecer, a instituição saiba exatamente o que fazer e em qual ordem.
O conceito de MVB guarda semelhanças com a abordagem de Minimum Viable Company já discutida em outros segmentos, mas aplica lógica específica às exigências regulatórias e operacionais do sistema financeiro.
Recuperação Cibernética: O que isso significa para líderes de TI e cibersegurança
Para CISOs, CTOs e diretores de tecnologia de grandes instituições financeiras, os dados do estudo exigem uma revisão honesta das estratégias vigentes. Três perguntas precisam ser respondidas com clareza.
Primeiro: os planos de recuperação atuais foram testados contra cenários de ataque cibernético, e não apenas contra falhas técnicas convencionais? Segundo: a organização sabe quais são suas aplicações e dados de missão crítica? O estudo aponta que 36% dos dados das organizações financeiras se enquadram nessa categoria, o que representa um volume expressivo a ser protegido com prioridade. Terceiro: existe um playbook claro para os primeiros momentos após um ataque, definindo o que deve ser restaurado primeiro?
A resiliência cibernética bancária eficaz exige integração entre equipes de segurança, infraestrutura, compliance e negócios. Silos operacionais tornam a resposta mais lenta e os prejuízos maiores.
O mercado de soluções voltadas para proteção de dados, gestão de ambientes distribuídos e planejamento de recuperação orientado a ciberataques está diante de uma janela de oportunidade significativa. A demanda por ferramentas que suportem estratégias como o MVB deve crescer na mesma proporção em que os ataques se intensificam. Para as instituições financeiras, porém, a urgência não é de oportunidade. É de sobrevivência operacional.