
Sundar Pichai, CEO do Google, afirmou em entrevista à Fox News que data centers de inteligência artificial no espaço devem se tornar o ‘novo normal’ dentro de uma década. A declaração veio acompanhada do anúncio do Project Suncatcher, iniciativa que prevê o lançamento de dois satélites-piloto em 2027 com chips de IA proprietários do Google operando em órbita pela primeira vez — uma resposta direta à crise energética que ameaça a expansão da infraestrutura de TI global.
O consumo de energia dos data centers está fora de controle. Um relatório do Departamento de Energia dos EUA publicado em dezembro de 2024 revelou que esse consumo triplicou nos últimos dez anos e pode dobrar ou triplicar novamente até 2028. Em 2023, os data centers já respondiam por mais de 4% de toda a eletricidade consumida nos Estados Unidos. A projeção para 2028 chega a 12%. É nesse cenário que Sundar Pichai, CEO do Google, lançou uma aposta audaciosa: data centers no espaço.
O que é o Project Suncatcher e o que muda em 2027
O Google anunciou o Project Suncatcher, iniciativa voltada a abastecer data centers com energia solar captada diretamente no espaço. O primeiro passo concreto está marcado para 2027: dois satélites-piloto serão lançados em parceria com a empresa Planet para testar hardware em órbita terrestre. A novidade técnica é significativa — os satélites utilizarão TPUs, as Tensor Processing Units, chips de inteligência artificial proprietários do Google, operando em órbita pela primeira vez na história.
Para executivos de TI e cibersegurança, o anúncio não é apenas uma curiosidade científica. Ele sinaliza uma transformação estrutural na forma como a infraestrutura de computação em nuvem será concebida, construída e protegida ao longo da próxima década.
Pichai justificou a iniciativa com um dado impressionante: o sol oferece 100 trilhões de vezes mais energia do que toda a energia produzida na Terra hoje. No espaço, painéis solares captam energia de forma contínua, sem a interferência da atmosfera ou do ciclo dia-noite. Isso tornaria os data centers no espaço muito mais eficientes do ponto de vista energético.
A corrida que já começou: Google, SpaceX, Amazon e as startups
O Google não está sozinho nessa corrida. A startup Starcloud, apoiada por Y Combinator e Nvidia, lançou seu primeiro satélite com IA embarcada em dezembro de 2025. A SpaceX, por sua vez, solicitou autorização para lançar até 1 milhão de satélites em órbita como parte de um plano de rede movida a energia solar para inteligência artificial. Elon Musk afirma que a Starship pode lançar até 500 gigawatts por ano em satélites de IA movidos a energia solar — quase dez vezes a capacidade atual de todos os data centers no espaço e na Terra combinados, estimada em 59 GW pelo Goldman Sachs.
Nem todos estão convencidos. Matt Garman, CEO da Amazon Web Services, ironizou a iniciativa em fevereiro, questionando a viabilidade de enviar racks de servidores pesados ao espaço. É um ceticismo compreensível: os desafios logísticos, técnicos e financeiros são monumentais.
O próprio Google mais que dobrou seu uso de energia em data centers nos últimos cinco anos, passando de 14,4 milhões de MWh em 2020 para 30,8 milhões de MWh em 2024. Ao mesmo tempo, a empresa conseguiu reduzir em 12% as emissões associadas à energia dos data centers em 2024, mesmo com essa expansão. O CEO da Starcloud projeta que data centers no espaço possam emitir até dez vezes menos carbono que os terrestres, mesmo considerando a poluição gerada pelos foguetes de lançamento.
O investimento financeiro também dá a dimensão da aposta. A Alphabet destinou entre US$ 175 bilhões e US$ 185 bilhões em capital de investimento para 2026, majoritariamente para expansão de infraestrutura de IA. A McKinsey estima mais de US$ 5 trilhões em capex para data centers terrestres até 2030. Em 2025, os grandes hyperscalers — Alphabet, Amazon, Oracle, Meta e Microsoft — emitiram US$ 121 bilhões em novos títulos de dívida, comparado a US$ 40 bilhões em 2020.
Cibersegurança orbital: os novos desafios para líderes de TI
Para os CISOs e CIOs que acompanham esse movimento, a questão mais urgente não é a viabilidade energética. É a segurança. Os data centers no espaço introduzem uma categoria inteiramente nova de riscos que a cibersegurança convencional ainda não sabe responder.
O primeiro desafio é físico: hardware operando em órbita está exposto à radiação cósmica e ao impacto de detritos espaciais. Falhas de hardware em solo podem ser corrigidas por uma equipe de manutenção em horas. No espaço, essa opção simplesmente não existe. O segundo desafio é comunicacional: os links a laser entre satélites e estações terrestres criam novos vetores de ataque e exigem protocolos de criptografia ainda em desenvolvimento para esse ambiente.
A latência é outro ponto crítico. A transmissão de dados entre órbita e Terra introduz atrasos que podem ser incompatíveis com aplicações de tempo real. Para workloads de IA que exigem respostas em milissegundos, esse gargalo precisa ser resolvido antes que a computação orbital se torne uma opção viável para uso corporativo.
Há ainda a questão geopolítica. A concentração de infraestrutura digital global nas mãos de poucas empresas — todas americanas — levanta questões regulatórias sérias para organizações operando em múltiplas jurisdições. Quem regula um data center em órbita? Quais leis de proteção de dados se aplicam? Essas perguntas ainda não têm resposta.
O movimento dos data centers no espaço está em estágio inicial, mas avança rapidamente. Para executivos de TI e cibersegurança, ignorar essa tendência em 2026 seria o mesmo erro que ignorar a computação em nuvem em 2010. O momento de entender as implicações e começar a construir frameworks de resposta é agora — antes que a infraestrutura orbital se torne parte do ambiente que precisam proteger.
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