
Na segunda-feira, a Anthropic publicou um relatório em que seus pesquisadores avaliam que pequenos modelos de IA podem, em poucos meses, ser capazes de se copiar para dispositivos conectados, como TVs inteligentes, roteadores e gravadores de câmera. Embora nenhum modelo atual tenha conseguido isso de forma confiável nos testes, modelos com essa capacidade são esperados até o fim de 2026.
A manchete chama atenção pelo lado assustador. Para quem lidera tecnologia, porém, o recado mais importante está em outro lugar. O relatório descreve um futuro em que agentes de software operam em diversos equipamentos, alguns sem controle humano. E esse futuro já começou dentro das empresas, de forma bem menos dramática.
Pequenos modelos de IA: A força de trabalho não contratada
Considere as funções de um agente de IA em uma empresa. Ele lê e-mails, responde a clientes, consulta o ERP, gera relatórios, abre chamados, aprova pequenas despesas e interage com outros sistemas. Em resumo, faz o trabalho de um colaborador.
A diferença, porém, está no tratamento. Quando uma pessoa ingressa na empresa, passa pelo RH, recebe crachá, um gestor, acessos definidos pelo cargo e um termo de confidencialidade. Ao sair, seus acessos são revogados no mesmo dia. Com os agentes, a maior parte disso não ocorre. Muitos são criados por uma área de negócio usando credenciais de serviço, recebem permissões amplas para evitar complicações e permanecem ativos muito depois de o projeto ser encerrado.
Na prática, grande parte das empresas já convive com uma força de trabalho digital que cresce sem registro, sem gestor e sem data de saída.
Por que isso altera a lógica da segurança
Por décadas, a segurança corporativa foi concebida como um muro. O perímetro era protegido, e quem estava dentro era, em princípio, confiável. A nuvem já havia enfraquecido esse modelo. Os agentes o tornam insuficiente, pois o risco passa a estar em quem age dentro da empresa com credenciais válidas.
Aprendi isso muito antes da IA. Liderei ambientes de missão crítica e alta disponibilidade, com monitoramento 24×7 em NOC e SOC, redundância em todas as camadas e SLAs contratuais. Os ativos críticos tinham observabilidade completa. Mesmo assim, as exposições mais sérias raramente estavam ali. Estavam na conta de serviço criada para um projeto antigo, na credencial de um fornecedor já desligado, no acesso que ninguém lembrava de ter concedido. Um agente de IA sem dono concentra todos esses riscos, com o agravante de agir sozinho, constantemente, e em breve poder se espalhar.
Nesta mesma semana, uma das maiores empresas de IA do mundo encontrou um dispositivo de gravação instalado por um colaborador em seu próprio escritório. O risco interno sempre teve um rosto humano. Agora, ele também ganha um rosto digital.
A identidade como novo perímetro
Se o agente funciona como um colaborador, a maneira mais simples de governá-lo é tratá-lo como tal. Isso implica dar a cada agente uma identidade própria, em vez de credenciais compartilhadas, e um dono de negócio que responda por suas ações. Significa conceder apenas os acessos essenciais, por tempo limitado, e registrar cada ação relevante em um log auditável.
E significa, sobretudo, ter um processo de desligamento. Projeto encerrado, agente desativado e credenciais revogadas. Parece óbvio, mas a experiência demonstra que é justamente essa etapa que as empresas negligenciam.
A mesma lógica protege os dispositivos. Um modelo que tenta se copiar para uma TV ou um roteador precisa de acesso, e acesso depende de identidade. Quando cada identidade tem um dono, permissão mínima e prazo, resta pouco espaço para um agente se espalhar sem ser detectado.
Agente sem dono é risco sem responsável.
Por onde começar
O primeiro passo é descobrir quantos agentes já existem. A maioria das empresas se surpreende com o número ao fazer esse levantamento junto às áreas de negócio, e não apenas com a TI.
Em seguida, é fundamental aplicar a eles as regras de identidade já utilizadas para pessoas, incluindo registro, gestor responsável, revisão periódica de acessos e desligamento formal. Em paralelo, os dispositivos conectados que podem atuar como hospedeiros, como TVs, roteadores, gravadores e storages, precisam ser isolados da rede principal, atualizados ou desativados.
Finalmente, o tema deve chegar ao conselho na forma de uma pergunta de governança simples. Quem se responsabiliza, hoje, pelas ações dos agentes da empresa?
Produtividade com controle
A IA autônoma trará ganhos enormes de produtividade, e nenhuma empresa séria os dispensará. A questão é se esses ganhos virão com controle ou com surpresas.
As empresas que conhecerem seus agentes, suas capacidades e quem responde por cada um escalarão a IA com tranquilidade. As demais descobrirão, em um incidente, que tinham colaboradores sem crachá circulando pelos seus sistemas havia muito tempo.

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