
A chinesa Unitree definiu o preço de sua oferta pública inicial de ações em 150,8 iuanes, aproximadamente US$ 22,34 por papel, em uma operação que pode avaliar a fabricante de robôs humanoides em cerca de 61 bilhões de iuanes, equivalentes a US$ 9,04 bilhões. Com a listagem, a companhia deverá se tornar a primeira fabricante desse segmento negociada em bolsa na China continental.
O movimento ocorre em um momento de expansão acelerada da indústria de robótica chinesa e, simultaneamente, de aumento das tensões tecnológicas entre Estados Unidos e China. Washington vem ampliando restrições relacionadas a tecnologias produzidas no exterior, incluindo equipamentos robóticos humanoides e quadrúpedes, cenário que adiciona uma variável geopolítica relevante aos planos internacionais da empresa.
IPO da Unitree coloca robótica chinesa no mercado de capitais
A companhia, também conhecida como Yushu Technology, pretende captar aproximadamente 6,1 bilhões de iuanes por meio da oferta. Serão colocadas no mercado cerca de 40,45 milhões de novas ações, equivalentes a 10% do capital social ampliado da organização.
A avaliação alcançada pelo IPO da Unitree supera expectativas anteriores para a operação. Em 2025, estimativas mencionadas pela Reuters apontavam uma avaliação de até 50 bilhões de iuanes. O novo patamar reflete o interesse crescente dos investidores por empresas ligadas à automação, inteligência artificial aplicada ao mundo físico e sistemas robóticos.
As inscrições para a oferta devem começar em 10 de agosto. Segundo o prospecto apresentado à Bolsa de Xangai, parte dos recursos obtidos será destinada ao desenvolvimento de software e hardware, criação de novos equipamentos e expansão da capacidade industrial.
A estratégia mostra que a competição na área deixou de estar concentrada apenas na capacidade mecânica das máquinas. Software, processamento de dados, modelos de IA, sensores, controle de movimentos e capacidade de interpretar ambientes passam a formar uma mesma arquitetura tecnológica.
DeepSeek entra como investidora estratégica
Outro elemento que chama atenção no IPO da Unitree é a participação da DeepSeek entre os investidores estratégicos da oferta. A aproximação une duas áreas que vêm recebendo grandes volumes de investimentos na China: inteligência artificial e robótica avançada.
A combinação representa uma tendência conhecida como inteligência incorporada, na qual modelos de IA deixam de operar exclusivamente em ambientes digitais e passam a orientar máquinas capazes de perceber e interagir com espaços físicos.
Nesse cenário, um dos maiores desafios tecnológicos está em fazer com que máquinas não apenas executem movimentos previamente programados, mas compreendam situações, interpretem informações do ambiente e realizem atividades com níveis crescentes de autonomia.
O interesse da DeepSeek reforça ainda a convergência entre diferentes setores da indústria chinesa de tecnologia. A empresa adquiriu participação de 2,31% na Unitree por meio da colocação estratégica ligada ao IPO, segundo informações divulgadas pela Reuters.

Robôs humanoides já superam quadrúpedes nas receitas
Os números apresentados pela fabricante ajudam a explicar o interesse do mercado. A receita total da companhia mais que quadruplicou em 2025, alcançando aproximadamente 1,7 bilhão de iuanes.
Somente os robôs humanoides responderam por 867,8 milhões de iuanes em vendas naquele período, superando os equipamentos quadrúpedes e tornando-se a principal atividade comercial da empresa.
O ritmo de expansão, entretanto, apresentou sinais de desaceleração em 2026. No primeiro trimestre, o faturamento avançou 68,5%, chegando a 422,8 milhões de iuanes. Ao mesmo tempo, o lucro ajustado, desconsiderando itens não recorrentes, caiu 52,6%, para 40,3 milhões de iuanes. O resultado ocorreu enquanto a fabricante elevava investimentos em pesquisa, desenvolvimento e marketing.
Esse cenário mostra uma característica da atual corrida tecnológica: empresas precisam ampliar rapidamente capacidade produtiva e desenvolvimento enquanto disputam posições em um setor ainda em formação.
Restrições dos EUA adicionam risco ao crescimento internacional
O maior ponto de atenção para a expansão internacional está nos Estados Unidos. O país respondeu por 13,3% da receita da fabricante em 2025, tornando-se um mercado relevante para sua operação fora da China.
Os equipamentos atualmente comercializados pela companhia possuem aprovações para atuação no mercado norte-americano. Modelos lançados futuramente, porém, podem ser afetados pelas novas barreiras impostas por Washington a equipamentos fabricados no exterior.
No próprio prospecto, a empresa reconhece riscos associados a tarifas, limitações em compras governamentais, controles comerciais e eventual perda de autorizações. Além do impacto nas vendas, medidas dessa natureza podem interferir na cadeia internacional de fornecimento de componentes.
A situação coloca a robótica chinesa em mais uma frente da disputa tecnológica entre EUA e China, que nos últimos anos já atingiu setores como semicondutores, infraestrutura de inteligência artificial e equipamentos avançados.
IPO da Unitree amplia disputa pela próxima geração de automação
A entrada da companhia no mercado de capitais representa mais do que uma operação financeira. O valor atribuído à fabricante estabelece uma nova referência para empresas que buscam transformar robótica avançada em uma indústria de grande escala.
Para o mercado corporativo, o avanço dos robôs humanoides também amplia as discussões sobre automação em fábricas, centros logísticos, laboratórios e outras operações intensivas em atividades físicas.
Ao mesmo tempo, o caso demonstra que a competitividade nesse segmento dependerá não apenas da evolução tecnológica. Cadeias de suprimentos, acesso a mercados internacionais, políticas comerciais, capacidade industrial, investimentos em pesquisa e domínio de inteligência artificial deverão influenciar quais empresas conseguirão ganhar escala.
Com uma avaliação próxima de US$ 9 bilhões, crescimento expressivo das receitas e participação da DeepSeek, o IPO da Unitree coloca a fabricante no centro de uma corrida que começa a unir capital, IA, automação e geopolítica em torno da próxima geração de máquinas inteligentes.
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