Executivos em negociação tensa diante de barreira regulatória ilustram como a China bloqueia compra da Manus pela Meta no setor global de tecnologia.

A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China (NDRC) bloqueou, em abril de 2026, a aquisição da startup de inteligência artificial Manus pela Meta, avaliada em US$ 2 bilhões. O órgão regulatório chinês determinou a reversão total do negócio, anunciado em dezembro de 2025, alegando preocupações com exportação de tecnologia, dados e investimento estrangeiro, em mais uma escalada da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China.

A China interveio de forma direta em uma das maiores aquisições recentes no setor de inteligência artificial. A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC) determinou que a Meta reverta a compra da startup Manus AI, avaliada em US$ 2 bilhões, cerca de R$ 10 bilhões. A decisão, anunciada em abril de 2026, representa um dos bloqueios mais significativos já impostos por Pequim a um negócio transfronteiriço envolvendo IA.

O que é a Manus AI e por que ela importa

Fundada em 2022 por Xiao Hong, Ji Yichao e Tao Zhang, a Manus AI se tornou uma das startups mais promissoras no segmento de agentes autônomos de inteligência artificial. A empresa-mãe, Butterfly Effect, estava registrada em Pequim. Em apenas oito meses após o lançamento do produto, a companhia atingiu US$ 100 milhões em receita recorrente anual (ARR), chegando a esse marco em dezembro de 2025.

Em abril de 2025, a Manus AI captou US$ 75 milhões em rodada liderada pela VC americana Benchmark, sendo avaliada em US$ 500 milhões. Seis meses depois, a Meta anunciou a aquisição da empresa por US$ 2 bilhões — quatro vezes esse valor. O plano era integrar a tecnologia da Manus ao assistente Meta AI e a produtos corporativos da empresa de Mark Zuckerberg.

O ‘Singapore-washing’ que não funcionou

Para viabilizar o negócio em meio às tensões geopolíticas entre EUA e China, a Manus AI adotou uma estratégia conhecida no setor como ‘Singapore-washing’: transferiu sua sede para Singapura em meados de 2025. Em julho do mesmo ano, encerrou escritórios na China e demitiu dezenas de funcionários ao deslocar suas operações para o sudeste asiático.

A manobra, no entanto, não convenceu os reguladores chineses. Em janeiro de 2026, o Ministério do Comércio sinalizou preocupações formais com exportação de tecnologia, dados e investimento estrangeiro. A NDRC iniciou uma investigação. Os cofundadores Xiao Hong e Ji Yichao foram proibidos de deixar o território chinês enquanto o processo corria.

O bloqueio final deixa um recado claro para o mercado: a jurisdição geográfica, por si só, não é critério suficiente para que Pequim abra mão do controle sobre empresas fundadas na China, especialmente em setores estratégicos como IA.

Reversão tecnicamente complicada

O timing da decisão agrava o problema. A Meta integrou a Manus AI a seus sistemas internos logo após o anúncio da aquisição, em dezembro de 2025. Desfazer essa integração técnica não é trivial. A empresa respondeu afirmando que a transação “cumpriu integralmente a legislação aplicável” e que aguarda uma resolução adequada.

O comunicado oficial da NDRC não citou diretamente a Meta nem detalhou os fundamentos jurídicos da proibição, postura que adiciona incerteza sobre os próximos passos e sobre o escopo real da decisão regulatória.

Impacto direto na corrida por agentes de IA

Para executivos de TI, o bloqueio tem consequências práticas imediatas. A Manus AI era vista como um ativo estratégico no desenvolvimento de agentes de IA autônomos, tecnologia que empresas como Google, Microsoft, OpenAI e Anthropic já estão acelerando. Perder o acesso a essa tecnologia coloca a Meta em desvantagem competitiva em um dos segmentos de maior crescimento da indústria.

Além disso, o episódio reforça a bifurcação do ecossistema tecnológico global. Investimentos cross-border em IA e semicondutores tornam-se cada vez mais arriscados, tanto do ponto de vista regulatório quanto operacional. Empresas que dependem de parcerias ou aquisições internacionais precisam revisar suas estratégias de M&A à luz desse novo cenário.

Efeito cascata para o ecossistema de startups

O caso da Manus AI deve gerar um ‘efeito gélido’, ou chilling effect, no ecossistema de startups de IA na China. Fundadores e investidores que consideravam aquisições por empresas ocidentais como saída viável passam a encarar um risco regulatório adicional e imprevisível.

A decisão também espelha, do lado chinês, os controles de exportação e restrições de investimento que os EUA já impõem a empresas de tecnologia chinesas, como as restrições à Huawei e ao acesso a chips avançados. O que antes era uma via de mão única começa a operar em ambas as direções.

A movimentação ocorre semanas antes de uma cúpula prevista entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, o que adiciona uma camada geopolítica ao episódio. O bloqueio à Manus AI pode ser lido também como sinal de força nas negociações sobre comércio e tecnologia que devem dominar a agenda bilateral nas próximas semanas.

O que líderes de TI precisam monitorar

Para CIOs, CTOs e líderes de cibersegurança, o caso levanta questões concretas de governança e estratégia. Qualquer iniciativa que envolva tecnologia desenvolvida por empresas com origem ou vínculos na China, mesmo que relocalizadas — pode estar sujeita a restrições similares. Due diligence geopolítica deixa de ser um diferencial e passa a ser obrigação em processos de M&A, fornecimento de tecnologia e parcerias estratégicas.

A Manus AI virou símbolo de uma nova era: na corrida global por inteligência artificial, as fronteiras regulatórias são tão relevantes quanto as fronteiras tecnológicas.

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