
Os cibercrimes já representam mais de 30% de todos os delitos registrados em parte relevante dos países da Ásia e do Pacífico Sul, segundo o relatório 2025/2026 Asia and South Pacific Cyberthreat Assessment, divulgado pela Interpol em 17 de junho de 2026. O levantamento mostra que a criminalidade digital deixou de ser uma ameaça paralela e passou a ocupar espaço central nas estatísticas de segurança pública, impulsionada pela digitalização acelerada, pelo crescimento dos serviços financeiros online e pela atuação cada vez mais organizada de redes criminosas.
A análise cobre o período de janeiro de 2024 a março de 2025 e indica que mais da metade dos países pesquisados relatou que os crimes digitais já respondem por cerca de 30% das ocorrências nacionais. O dado reforça uma mudança estrutural no ambiente de risco: fraudes, ataques de phishing, ransomware, roubo de dados e golpes com apoio de inteligência artificial passaram a afetar indivíduos, empresas, governos e infraestruturas críticas em escala regional.
Fraudes digitais lideram o cenário de ameaças
De acordo com a Interpol, os golpes online e as campanhas de phishing aparecem como as formas mais disseminadas e financeiramente danosas de crime cibernético na região. Em 33% dos países avaliados, foram registrados mais de 10 mil casos desse tipo de ocorrência, evidenciando o alto volume de ataques baseados em engenharia social.
O phishing evoluiu de disparos genéricos para abordagens mais direcionadas. Mensagens personalizadas, simulação de identidades corporativas, uso de dados vazados e técnicas de manipulação emocional ampliam a taxa de sucesso dos golpes. Esse movimento se torna ainda mais preocupante com o uso de ferramentas de inteligência artificial no cibercrime, capazes de gerar textos, imagens, áudios e vídeos falsos com maior realismo.
O relatório também aponta que 5,5 em cada mil usuários da região clicaram mensalmente em links de phishing, índice aproximadamente duas vezes superior à média global. Aplicações em nuvem aparecem entre os principais alvos, o que pressiona empresas a reverem controles de autenticação, monitoramento de acessos e políticas de proteção de identidade.
IA, deepfakes e golpes em escala industrial
A adoção de IA por grupos criminosos amplia a complexidade das investigações e reduz a barreira técnica para a execução de fraudes. Segundo a Interpol, discussões sobre deepfakes em fóruns criminosos e canais de Telegram populares entre agentes de ameaça do Sudeste Asiático cresceram 600% entre fevereiro e junho de 2024.
Esse avanço cria um ambiente em que golpes financeiros podem combinar voz sintética, vídeo falso, perfis forjados e mensagens altamente convincentes. A Cyber Security Brazil destaca casos em que empresas foram enganadas por reuniões virtuais manipuladas, incluindo episódios envolvendo transferências milionárias após criminosos simularem a presença de executivos em videochamadas.
A sofisticação também aparece em fraudes românticas e esquemas operados por centros criminosos no Sudeste Asiático. Em países como Camboja, Laos, Myanmar e Filipinas, autoridades e organizações internacionais já documentaram estruturas em que pessoas vulneráveis são exploradas para participar de operações fraudulentas em grande escala. A Interpol cita estimativa de Singapura segundo a qual a indústria regional de golpes movimenta cerca de US$ 40 bilhões por ano.

Ransomware e roubo de dados ampliam pressão sobre empresas
Além das fraudes, o relatório aponta que o ransomware segue como uma das principais ameaças para organizações públicas e privadas. A região registrou mais de 135 mil ataques relacionados a ransomware em 2024, com impactos em setores como mercado imobiliário, manufatura e serviços financeiros.
Os ataques de negação de serviço distribuído também ganharam força. Conforme a Interpol, os incidentes de DDoS cresceram 92% em 2024 na comparação com o ano anterior, evidenciando a pressão sobre disponibilidade de serviços digitais e infraestrutura online.
Outro ponto de atenção envolve violações de dados. Intrusões em sistemas responderam por aproximadamente 80% dos vazamentos em 2024, com malware presente em 83% dos casos e ransomware em 51%. Esse cenário reforça a conexão entre roubo de credenciais, invasões corporativas, movimentação lateral e extorsão digital.
Desafio ultrapassa fronteiras nacionais
A expansão dos cibercrimes na Ásia e no Pacífico Sul revela uma dificuldade comum a várias regiões: a velocidade da digitalização nem sempre é acompanhada por estruturas equivalentes de investigação, resposta e governança. Órgãos de aplicação da lei ainda enfrentam limitações em ferramentas forenses, capacitação técnica, compartilhamento de inteligência e recursos operacionais.
A situação é mais sensível em países em desenvolvimento e pequenos Estados insulares, onde restrições de orçamento e maturidade regulatória podem tornar a resposta mais lenta. Para grupos criminosos, essas fragilidades representam oportunidade de operação com menor risco imediato de responsabilização.
Ao mesmo tempo, a Interpol observa que governos da região vêm adotando medidas de reação. Entre os países pesquisados, 66,7% já utilizam ferramentas de IA para análise preditiva, perícia digital e detecção de ameaças. Também há iniciativas voltadas à atualização de legislações, criação de unidades especializadas e campanhas de conscientização pública.
Cibersegurança passa a ser pauta de segurança pública
O crescimento dos cibercrimes indica que a resposta não pode ficar restrita às áreas de tecnologia. A proteção contra fraudes digitais, ransomware, vazamentos e deepfakes exige cooperação entre governos, forças policiais, empresas, provedores de tecnologia e sociedade civil.
Para organizações, o relatório reforça a necessidade de fortalecer autenticação multifator, gestão de identidade, segurança em nuvem, resposta a incidentes, treinamento de usuários e monitoramento contínuo. Também aumenta a relevância de estratégias de cibersegurança corporativa capazes de conectar prevenção, detecção e recuperação.
A leitura global é clara: o avanço da criminalidade digital na Ásia e no Pacífico Sul não representa apenas um problema regional. Trata-se de um alerta para mercados conectados, cadeias de suprimentos internacionais e empresas que operam em ambientes cada vez mais distribuídos. Em um cenário no qual ataques atravessam fronteiras com facilidade, a resiliência cibernética passa a ser parte essencial da proteção econômica, institucional e social.
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